Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
De Rouille et D

A voracidade de Emmanuelle Devos em Sur mes Lèvres é inultrapassada aqui por uma Marion Cotillard amaneirada

 

Dizer que De Rouille et D"Os arrisca o "kitsch metafórico" pode ser excessivamente metafórico, mas a expressão, ouvida à saída da projecção para imprensa, em concurso, do filme de Jacques Audiard, está de acordo com o tom deste melodrama "impressionista" - desta vez, expressão do próprio Audiard. Sinaliza que algo se torna agora mais explícito, menos secreto e até mais gongórico na obra deste cineasta francês de trajectória particular, que se iniciou como realizador em 1994 aos 42 anos (afinal, uma idade como qualquer outra para começar...), com Regarde les Hommes Tomber, e que em 18 anos realizou apenas seis longas. Argumentista e realizador, experimenta sempre um parto difícil com os filmes.

 

De todos, aquele que mais vem à memória perante De Rouille et D"Os - vejam-se as semelhanças e as diferenças, onde ele estava e onde está - é Sur mes Lèvres (2001), em que Emmanuelle Devos (que integra o júri do concurso desta edição) era infeliz, surda e usava próteses auditivas, e Vincent Cassel o fura-vidas que se abeirava dela. Com esse encontro, sôfrego e ao mesmo tempo delicado, ocupado pela sensualidade e o assombro do cinema mudo, Audiard filmava qualquer coisa da ordem da metamorfose e da monstruosidade. Este é o seu tema, na verdade: como homens e mulheres se transcendem pela força das circunstâncias e que limites - morais, por exemplo - se rompem nessa deriva animal(esca).

 

Em De Rouille et D"Os, uma leitura de Rust and Bone, colectânea de contos do canadiano Craig Davidson, Marion Cotillard não tem pernas (um acidente profissional, era treinadora de orcas num espectáculo aquático) e Matthias Schoenaerts parte-se também, em combates clandestinos de boxe.

Forma-se um par, e julgamos que no final se forma uma hipótese de família. Mas o melodrama que os vai envolver sai-lhes do corpo (rust and bone), literalmente. De tal forma que o título do filme, se quiséssemos que nele ecoasse Sur mes Lèvres, poderia ser "Nos meus ossos". Chegados aqui, teremos de dizer que a voracidade de Emmanuelle Devos em Sur mes Lèvres continua inultrapassável, aquela agressividade passiva, e que Marion Cotillard é amaneirada. Para o bem e para o mal, Cotillard (Oscar por La Môme, em que foi Piaf) acaba por ser o "rosto" do ponto em que hoje se encontra Audillard, no pós-Um Profeta (Grande Prémio do Júri em Cannes 2009): consciente dos efeitos da sua "arte". Não precisou de muito para se mostrar em Sur mes Lèvres, aqui faz de mais. O que não seria de lamentar não se desse o caso de, com isso, o espectador ficar privado da experiência da intimidade deste par, tendo direito apenas à exterioridade, ao barulho que o realizador quer fazer com as personagens - o "kitsch metafórico" talvez seja isso. O abismo com que Audiard nos acena quando fala na importância de um filme delirante e trágico como The Unknown (1927), de Todd Browning - Lon Chaney amputava os braços para desencadear o desejo em Joan Crawford, que não suportava ser agarrada pelos homens mas que entretanto se curava da fobia, demasiado tarde, porém, para os ossos de Lon Chaney... - não está, definitivamente, aqui.

 

Também é um melodrama After the Battle, de Yousry Nasrallah (concurso). Transporta a generosa fisicalidade do cinema egípcio, algo com que Youssef Chahine, por exemplo, fazia música, e também as suas intenções pedagógicas: no sentido de um filme, histórias de indivíduos, ser um ecrã a latejar de política com a confluência dos vários pontos de vista de um debate sobre a sociedade - a forma, aliás, que Nasrallah utilizou também para construir o argumento. Apanhando um momento das vidas, no pós-Tahrir, de personagens de meios sociais diferentes - um dos cavaleiros utilizados pelo regime de Mubarak que carregaram sobre os manifestantes, o Egipto que se sente sacrificado pelo desejo de mudanca; uma jovem divorciada, revolucionária de classe média, o Egipto moderno e secular - interroga as imagens fixas, porque não reveladoras de toda a verdade, que nos chegaram pela televisão ou o Facebook. Como se acreditasse que só com a ficção a complexidade e o derrube de preconceitos podem ser um movimento concreto. Se quisermos, After the Battle está algures entre Rossellini e Fassbinder.



publicado por olhar para o mundo às 19:26 | link do post | comentar

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