Sexta-feira, 27.04.12
O outro lado da América e o corredor da morte no Indie LisboaEm Into the Abyss Werner Herzog revela o outro lado da America, the beautiful (Stephane de Sakutin/AFP)
Na abertura do IndieLisboa, nesta quinta-feira, Werner Herzog leva-nos ao lado escuro da América. Circunstâncias e consequências de um triplo assassínio: Into the Abyss não é para almas sensíveis.

Outubro de 2001, Conroe, 37 mil habitantes, a 64 quilómetros de Houston, no estado americano do Texas. Os adolescentes Michael Perry e Jason Burkett batem à porta da enfermeira Sandra Stotler, moradora num bairro residencial de condomínio fechado, para perguntar se os seus amigos Adam Stotler e Jeremy Richardson estavam em casa. Antes de a noite acabar, Sandra, Adam e Jeremy estarão mortos.

Perry e Burkett queriam convencer os amigos a irem todos dar uma volta no Chevrolet Camaro vermelho da enfermeira. Mas Adam e Jeremy não estavam em casa, e Perry e Burkett decidiram pôr em acção um plano B improvisado: roubar o carro. Enquanto Burkett batia à porta da frente, Perry entrou pela garagem e disparou à queima-roupa sobre Sandra. Embrulharam o corpo num lençol e foram desfazer-se dele a um lago próximo. Quando regressaram, viram-se fechados fora do condomínio. Ligaram para Adam e Jeremy alegando que um amigo estava em dificuldades. Mataram-nos em seguida para roubar o comando que dava entrada ao condomínio e roubaram o Camaro. Dois dias depois, foram presos após um tiroteio com a polícia local. Perry foi condenado à morte e Burkett a prisão perpétua.

Em 2010, o cineasta alemão Werner Herzog dispôs de meia hora para entrevistar cada um dos criminosos. Faltavam oito dias para Michael Perry ser executado. Herzog falou igualmente com a filha de Sandra Stotler, com o irmão de Jeremy Richardson, e com o pai e a mulher de Jason Burkett. Entrevistou padres, detectives, vizinhos, amigos, conhecidos. Através da sua investigação e do seu olhar sobre este crime, Werner Herzog revela uma América profunda de gente condenada a uma vida longe de ser a que sonhavam. O resultado pode ser visto hoje na abertura do IndieLisboa. Chama-se Into the Abyss: A Tale of Death, a Tale of Life. É um dos acontecimentos cinematográficos de 2012.

Werner Herzog não precisa de apresentações. Revelado na nova vaga do cinema alemão nos anos 1970, contemporâneo de Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder ou Volker Schlöndorff, Herzog tem prosseguido uma carreira singular que sempre fez questão em escapar a classificações simplistas, balizada por filmes emblemáticos como Aguirre, o Aventureiro (1972), Nosferatu – O Fantasma da Noite (1978) ou Fitzcarraldo (1982). Embora menos conhecida entre nós, a sua vertente de documentarista tem igual peso na sua carreira, funcionando como "desdobramento" temático e criativo das suas ficções fascinadas pelo lado escuro e obsessivo do ser humano. Grizzly Man (2005) e A Gruta dos Sonhos Perdidos (2010) chegaram às nossas salas, The Wild Blue Yonder (2005) e Encounters at the End of the World (2007) passaram em edições anteriores do IndieLisboa.

No corredor da morte

Into the Abyss nasceu de um projecto para o canal televisivo Discovery sobre a pena de morte nos EUA. A série daí resultante – On Death Row – teve estreia mundial no festival de Berlim deste ano antes da sua exibição no Investigation Discovery americano em Março. Mas a história de Jason Burkett e Michael Perry perturbou Herzog de tal modo que se autonomizou.

Ao jornal The New York Times, aquando da estreia do filme no festival de Telluride em Setembro último, o realizador disse "não estar no negócio da culpa nem no da inocência". Muito embora Herzog seja abertamente contra a pena de morte, Into the Abyss recusa tomar partido ou erguer bandeiras. É uma espécie de "CSI: Pena de Morte", traçando desapaixonadamente, de modo quase forense, circunstâncias e consequências do triplo assassínio de Conroe. Recorrendo a imagens de arquivo da investigação – que tornam o filme pouco aconselhável a almas sensíveis – entrecortadas com as entrevistas que ele próprio conduziu, Herzog transcende o mero documentário investigativo para explorar a dimensão humana de um crime que custou a vida a três pessoas por causa de um carro.

Do outro lado do sonhoInevitavelmente, é da sociedade americana que aqui se fala, e dos seus contrastes exacerbados entre ricos e pobres. Michael Perry e Jason Burkett vinham de uma cultura de pobreza e analfabetismo, rodeados pelo crime, pelo álcool, pelas drogas como saídas acessíveis para uma existência sem futuro, enquanto Sandra e Adam moravam numa casa confortável numa zona residencial afluente. O pai de Jason Burkett, Delbert, é entrevistado por Herzog enquanto cumpre a quarta pena de prisão, agora perpétua, no mesmo estabelecimento prisional do filho e, perante a câmara, faz uma declaração espantosa: a sua consciência de que "we never had a chance". A sua família estava condenada por vir do "lado errado" da cidade.

A câmara de Herzog não faz outra coisa que não seja devolver a todos eles – criminosos e vítimas – a sua dignidade, a sua humanidade. Mas haverá dignidade, humanidade em gente capaz de matar a sangue-frio por causa de um carro?, perguntarão. A questão, para o cineasta alemão, nem se põe. Todos os seres humanos são dignos de respeito, por mais horríveis que sejam os seus actos. "Não tenho de gostar de si," diz Herzog a Perry ao iniciar a sua entrevista. "Mas respeito-o, porque você é um ser humano."

Esse respeito esconde-se no modo como a câmara de Peter Zeitlinger (habitual director de fotografia de Herzog) olha para estas pessoas. Um olhar que se inscreve todo na duração, no tempo e no espaço que permite a cada entrevistado revelar a sua humanidade, sem nunca tombar na facilidade ou na exploração gratuita da dor e do sofrimento. Aqui não há sensacionalismo, apenas uma câmara à altura de homem, mostrando o que há para mostrar, revelando o outro lado da America, the beautiful. É aí que este "conto de morte e de vida" se ganha como um dos mais perturbantes documentos do ano. Não deixa ninguém indiferente.

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 08:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 06.05.11

Bang! Bang! Estás morto, de sedução

 

Bang Bang canta Dalida em "Les Amours Imaginaires", de Xavier Dolan. Tiros para fazer o espectador sucumbir à sedução. É no S. Jorge. À mesma hora, na Culturgest, as manobras do terrorista "Carlos", de Olivier Assayas, para conquistar o mundo. Bang! Bang! Sucumbimos nós

 

Quem suspeita dos sedutores - escrevia-se no número de Outubro de 2010 dos antigamente mais insuspeitos Cahiers du Cinéma - "não pode deixar de sucumbir, lógica paradoxal, à overdose de sedução". Bela desculpa, pois claro, e a revista francesa sucumbiu - bang! bang!, estás morta, de sedução. Passou as quatro páginas seguintes a justificar-se, apoiando-se e refugiando-se no desequilíbrio da coisa: o parfois émouvant, parfois agaçant, en équilibre entre les deux.

A "coisa" aqui, às vezes "comovente", às vezes "irritante", é a obra de Xavier Dolan, 22 anos. Sim, "a obra", pois que os seus dois filmes já são lidos como edifício: J'ai Tué Ma Mère - o "ai Jesus" da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2009, filme que Dolan escreveu quando tinha 17 anos - e Les Amours Imaginaires, filme que abre quinta-feira, às 21h30, no S. Jorge, o IndieLisboa.

Thierry Fremaux, o director artístico de Cannes, festival que tem estado a fabricar Dolan, tem a certeza que o quebequense Xavier, que, antes de realizar filmes, foi child actor (aos quatro anos), veio para ficar. É preciso, primeiro, que abandone o campeonato do cool.

O que tem seduzido alguns, para além do cabelo ao alto, dos óculos, da arrogância juvenil (a juventude continua a ser questão) é a iconoclastia - pós-queer?- de um jovem homossexual que interpreta jovens homossexuais sem fazer guerrilha. Ele já disse: "Não dizemos que há filmes judeus ou filmes heterossexuais" por isso não faz sentido estar a identificar filmes homossexuais. Bem visto.

Há um humor ácido nos filmes, também, isso não é pouca coisa. Será do Quebec? Cinematograficamente é que a coisa não escapa ao banal.

J'ai Tué Ma Mère, catarse da relação do próprio Xavier com a mãe, era uma exibição de histeria juvenil. Entre o émouvant e o agaçant, vencia o segundo. Era nesse filme que a personagem de Dolan dizia qualquer coisa como: "Párem de me comparar às crianças da minha idade, não sou como elas." O filme é isso: exibição de uma afectação, o sobredotado.

Em Les Amours Imaginaires temos fragmentos de um discurso amoroso, mas sem discurso. Xavier e uma amiga (Monia Chokri) estão mais apaixonados pela paixão do que pela estátua (Niels Schneider) que desejam. E que, quando lhes aparece à frente, parece aquele pedaço de As Virgens Suicidas em que irrompe o objecto de fascínio das irmãs Lisbon. Mais outro caso, como o de Sofia Coppola, em que o parfois superficial pode ser lido parfois como um filme de superfícies?

Les Amours Imaginaires não é um filme sobre um triângulo amoroso, é um filme sobre um duelo por um objecto de desejo, disse o realizador. Música e câmaras lentas. Bang Bang cantado não por Nancy Sinatra, mas por Dalida, ainda The Knife, Bach, cores garridas, pedaços de Wong Kar-wai, de Almodóvar, de Bertolucci, e um vazio no fim da acumulação. Mas Xavier Dolan é arguto. Como se se espantasse com o olhar dos outros, tem-se fartado de dizer que não tem muito para dizer ainda, porque não viveu muito. "Sinto que não devo ouvir as críticas positivas e negativas. Às vezes acho que as pessoas são demasiado duras para mim e outras vezes acho que são demasiado indulgentes", disse numa entrevista. Deviam ouvi-lo.

No final de Les Amours Imaginaires o desejo do desejo renova-se com o aparecimento de Louis Garrel. Devia ser o intérprete do próximo filme de Xavier Dolan, mas desvinculou-se. É Melvil Poupaud que, em Laurence Anyways, vai interpretar um homem que muda de sexo - e convence a mulher a continuar a amá-lo(a).

Fim das ideologias

A sedução é também a arma do terrorista Carlos: o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez - assim chamado em homenagem a Lenine -, conhecido como Carlos, o Chacal. Inimigo público nº 1 nos anos 1970, quando abraçou a causa da Frente Popular de Libertação da Palestina, cumpre pena perpétua numa prisão francesa pelas suas actividades. O filme, Carlos, que chega às salas portuguesas em Junho, é um tour de force de um cineasta habitualmente frágil e íntimo, Olivier Assayas, que aqui se aventura pela História, olhando para o revolucionário e

ou mercenário, para a "estrela" do terrorismo, de forma frágil e íntima. É um pedaço da história do século XX em mais de duas horas e meia, a versão televisiva ultrapassa as cinco horas e meia, é o relato do fim das ideologias, das utopias, bombas, tiros e etc, mas o assalto às instalações da OPEC, em Viena, em 1975, por exemplo, é reconstituído com quem descreve actos e feitos do quotidiano e não cenas de um filme de acção.

É, sobretudo, uma história sobre o narcisismo de um corpo: Carlos - outro tour de force, o do actor venezuelano Edgar Ramirez - e a sua estratégia de sensualidade, as mulheres como as armas, para chegar ao topo. Ao som de Dreams Never End, dos New Order, frente ao espelho. Bang! bang!, aqui sucumbimos nós, na Culturgest, quinta, às 21h15.

"Les Amours Imaginaires", de Xavier Dolan, Cinema S. Jorge, quinta, às 21h30
"Carlos", de Olivier Assayas, Grande Auditório da Culturgest, quinta, às 21h15

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 17:01 | link do post | comentar

mais sobre mim
posts recentes

O outro lado da América e...

Indie Lisboa, Bang! Bang!...

arquivos

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Dezembro 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

tags

todas as tags



comentários recentes
Ums artigos eróticos são sempre uma boa opção para...
Acho muito bem que escrevam sobre aquilo! Porque e...
Eu sou assim sou casada as 17 anos e nao sei o que...
Visitem o www.roupeiro.ptClassificados gratuitos d...
então é por isso que a Merkel nos anda a fo...; nã...
Soy Mourinhista, Federico Jiménez Losantos, dixit
Parabéns pelo post! Em minha opinião, um dos probl...
........... Isto é porque ainda não fizeram comigo...
Após a classificação de Portugal para as meias-fin...
Bom post!Eu Acho exactamente o mesmo, mas também a...
links


blogs SAPO
subscrever feeds