Sábado, 26.05.12
Excepção feita aos clássicos que todos sabem de cor, os Metallica não sobressaltaram a multidão
Excepção feita aos clássicos que todos sabem de cor, os Metallica não sobressaltaram a multidão (Miguel Manso)

A banda de Seek and destroy interpretou na íntegra Black Album, o seu disco de maior sucesso, mas não deslumbrou. O primeiro dia de Rock in Rio foi dedicado ao metal e isso, tal como o resto – o conceito, as atracções e as distracções -, já não é novidade. Num dia sem surpresas, 42 mil pessoas passaram pelo Parque da Bela Vista

 

Ainda o sol deste quente final de Maio iluminava o Parque da Bela Vista quando Andreas Kisser, o guitarrista dos Sepultura, a banda que inaugurou o palco Mundo, o principal do Rock in Rio, declarou para todos ouvirem: “Estamos aqui celebrando o heavy-metal. Melhor dia do festival, com certeza”. E sim, foi com certeza o melhor dia do festival para os tantos com t-shirts dos Metallica, dos Kreator (que tocaram no palco Sunsert) ou dos Motorhead (que veríamos estampados nas costas de James Hetfield, vocalista dos cabeças de cartaz).

Neste ano em que o Rock in Rio arrancou com o dia dedicado ao metal, a organização contabilizou 42 mil espectadores. Apesar da descarga eléctrica violenta, conturbada, das bandas em palco, foi um arranque sereno. Os Metallica encerraram a noite interpretando na íntegra o seu álbum mais bem-sucedido comercialmente, homónimo mas conhecido comoBlack Album, mas excepção feita aos clássicos que todos sabem de cor, não sobressaltaram a multidão.

Os Sepultura depararam-se com público muito considerável e tiveram nos Tambours Du Bronx, grupo de percussão francês, colaboradores perfeitos no acentuar da carga tribal-urbano-apocalíptica da sua música (o início, com uma barreira de percussão que desembocou em Refuse/Resist, foi exemplar). Mas era ainda muito cedo (às 18h estavam cerca de 20 mil espectadores na Bela Vista) para grandes tumultos entre a multidão metaleira que, como sempre, acorreu para celebrar a sua música, a sua comunidade. Que o digam os Mastodon, a muito celebrada banda a caminho de clássica que se seguiu aos Sepultura.

No extremo oposto ao palco principal, o palco Sunset lotou para os Ramp e assistiu-se a uma pequena debandada quando os Teratron, a banda electro rock mutante dos Da Weasel João Nobre e Quaresma (que eram ali parceiros de palco dos clássicos do metal português), tomaram o protagonismo e tocaram, por exemplo, uma versão de Firestarter, dos Prodigy.

Os fãs de metal são tão admiráveis na sua devoção e conhecimento das bandas e dos heróis do género quanto, muitas vezes, conservadores perante música que fuja às bases clássicas do rock'n'roll. Como tal, os sintetizadores, os ritmos e o cantor/MC dos Teratron – banda a pedir o escuro da noite ou da pista de um clube -, mostraram-se incapazes de cativar toda a multidão que, depois de os Mão Morta inaugurarem aquele palco com a companhia dos Mundo Cão e do escritor Valter Hugo Mãe, que se juntou para seguir os Ramp. O facto é que, de costas para o sol no Sunset, muito havia a explorar.

Este é, afinal, o Rock in Rio, um festival que, mais que qualquer outro, se promove enquanto experiência familiar com entretenimento diversificado. Oito anos após a primeira edição, tal não é novidade: lá vimos o slide que atravessa a zona fronteira ao palco principal; a roda gigante e a montanha-russa; sessões de karaoke e o lufa-lufa das ofertas dos patrocinadores que surgem a cada passo. Ao final da noite, o público carregaria para casa os tão concorridos sofás insufláveis, caminhando com os óculos de sol oferecidos na mão e com cristas cor-de-rosa na cabeça. Nessa altura, já se tinha visto o fogo-de-artifício que iluminou os momentos finais do concerto dos Metallica, a banda que todos esperavam e que surgiu no festival em modo de celebração.

Neste momento, o quarteto de São Francisco é no metal uma instituição assemelhada aos Rolling Stones. Vê-los é recordar uma história e as canções que as construíram. Ontem, isso foi mais evidente que nunca – a começar pelo colete do vocalista e guitarrista James Hetfield, onde se destacava o nome dos Motorhead e o logótipo dos Misfits.

Precisos como sempre, com uma produção sintomática da sua dimensão actual – palco de dois “andares”, ecrãs gigantescos, corredores entrando plateia dentro -, foram bombásticos e demoníacos no início onde se ouviram Master of puppets ou For whom the bell tolls. Foram, depois disso, inevitavelmente previsíveis. Esta é, afinal, a Black Album 2012 Tour.Nos ecrãs surgiram imagens que nos transportaram a 1991, data da edição do Black Album. Ouviu-se então esse mesmo álbum, o que lhes abriu as portas ao reconhecimento das massas, tocado da última à primeira canção, ou seja, de The struggle within a Enter sandman. Claro que se viram os braços de milhares movendo-se sincopadamente e claro que se ergueram telemóveis (e, momento retro, isqueiros) na balada das baladas Nothing else matters; obviamente que a rapariga à nossa frente, apoiada numa muleta, a ergueria quando se anunciou o riff dos riffs que é Wherever I may roam e também foi natural, digamos, aqueles dois à direita dela, jovens metaleiros há vinte anos, metaleiros com sinais de calvície hoje, abraçarem-se e saltarem de contentes, cerveja saltando do copo em todas as direcções, quando se anunciou a ainda deliciosamente sinistra Unforgiven.

Ainda assim, constatámos que se actualmente, culpa das facilidades da net, ninguém tem pachorra para ouvir um álbum do princípio ao fim, o mesmo sucedia há duas décadas (assim se explica que as últimas canções do Black Album tenham sido recebidas como completas desconhecidas). Ficou também a sensação, apesar da cortesia da praxe - “Metallica loves you” e por aí fora -, que a banda estava tão decidida a “despachar” o concerto quanto o público desejoso de se “despachar” a fruí-lo. É certo que o encore, com Fight fire with fire e One, com pirotecnia e fumos, devolveu alguma chama ao concerto (perdoe-se a redundância). É certo que teremos sempre Seek and destroy, mas faltou a química, o êxtase, o desejo rock'n'roll.

Não era certamente isso que antecipava o homem dobrado sobre si próprio que, a meio da noite, berrava desesperado ao telemóvel. “Mas eu estou no mesmo sítio, porra!”, insistia uma e outra vez. Em palco estavam os Evanescence e nós partilhámos aquela dor. A banda de Amy Lee, valquíria de saia de folhos e muitos malabarismos vocais, provoca precisamente aquela sensação: “Mas eu estou no mesmo sítio, porra!”. Uma melodia ao piano a puxar ao barroco sentimental via Kate Bush, a detonação da distorção das guitarras para dar a entender, sem qualquer vestígio de subtileza, que aquilo é coisa da pesada e, por fim, um refrão que cumpre ponto por ponto as regras de playlist de rádio anónima. Canção após canção, os Evanescence insistiram nisto.

Felizmente que, depois deles, apareceria no pequeno palco da Vodafone FM o punk hardcore dos portugueses Devil In Me. Irados, felicíssimos, transbordantes de energia, fizeram o público levantar toda a poeira que o chão guardava – e ainda homenagearam Adam Yauch, dos Beastie Boys, com uma versão de Sabotage.

Felizmente, enquanto Amy Lee contorcia a voz pela enésima vez, algo acontecia num espaço chamado Rock Street, rua inspirada em Nova Orleães e montada como cenário de estúdio de cinema. É a zona comercial do Rock in Rio e inclui restauração, loja de vestuário ou cabeleireiro. Também tem um coreto e, nele, estavam uns Antwerp Gipsy-Ska Orchestra que, enfiados nos seus fatos de gajos com pinta, saltitavam ao ritmo do ska e de fanfarra cigana (o nome da banda é realmente descritivo), com teclado borbulhante e saxofone que bamboleava em bom ritmo. Perante eles, algumas dezenas dançavam de sorriso estampado no rosto. Perante nós, uma surpresa agradável num espaço, a Rock Street sem rock, que surge como a novidade deste Rock in Rio que, à quinta edição, para o bem e para o mal, já conhecemos demasiado bem.

O festival continua neste sábado com os Smashing Pumpkins como nome principal. O cartaz que inclui ainda, no palco principal, Linkin Park, Offspring e Limp Bizkit.

 

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publicado por olhar para o mundo às 18:32 | link do post | comentar

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