Terça-feira, 15.05.12
Eduardo Lourenço
Eduardo Lourenço (Nelson Garrido)

É uma cerimónia de peso a que está prevista para a entrega do Prémio Pessoa 2011 ao ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço hoje ao final da tarde na Culturgest, em Lisboa. A mesma que celebra os 25 anos do galardão e, também por isso, ajudou a definir a escolha do escritor de 88 anos entre os 50 possíveis vencedores.

 

Presidente da República, primeiro-ministro e presidente da Assembleia da República marcam presença na cerimónia; como também anteriores vencedores do Prémio Pessoa – como o escritor Vasco Graça Moura, o bispo D. Manuel Clemente, a cientista Maria do Carmo Fonseca, a historiadora Irene Pimentel, entre outros, que estarão também numa conferência, à tarde, antes da cerimónia, e tenta responder à pergunta: “Que Portugal queremos daqui a 25 anos?”. 

Em 2011, por ser um ano de celebração de um prémio, lançado há um quarto de século pelo jornal Expresso, fundado por Francisco Pinto Balsemão, o júri quis que ele fosse também símbolo da data comemorativa e, ao mesmo tempo, entregue a uma figura com um legado no século XX. “Num momento como este, é particularmente importante que seja dado o prémio a Eduardo Lourenço. Além de tudo, é um homem que acredita em Portugal e nos portugueses”, declarou Mário Soares, ex-Presidente, amigo do filósofo, e um dos 11 membros do júri, quando o prémio foi anunciado em Dezembro.

Visionário de uma Europa em crise

Para o próprio, foi uma surpresa, como então disse Eduardo Lourenço ao PÚBLICO, porque, apesar de a sua obra girar à volta de Pessoa, receber este prémio já não estava no seu horizonte. ”Já não contava realmente com esse prémio. Já estou no fim de carreira e de vida”, disse o filósofo, a partir de Vence (França) onde vive. 

E, no entanto, a “força e vitalidade intelectual”, “a curiosidade intelectual que se tem na adolescência e depois se perde”, foi na altura apontado, pela escritora e cronista Clara Ferreira Alves, como uma “característica única”, própria de quem é jovem, mas que encontra em Eduardo Lourenço, apesar dos seus 88 anos.

Outras importantes razões para a escolha apontadas pelo júri, presidido por Pinto Balsemão: a natureza fundadora do pensamento de Lourenço para a existência de uma História da Literatura Portuguesa, o seu pensamento filosófico e político, e a sua visão antes do tempo do caminho que viria a percorrer a Europa. “A primeira reflexão sobre o nosso lugar na Europa foi deste português europeu”, lembrou então Clara Ferreira Alves. “Ele foi das primeiras pessoas a observar que havia umas fendas naquilo que na altura parecia um chão de solidez que era o chão europeu.”

Além disso, o júri quis, com este prémio, homenagear “a modéstia” e “a generosidade” da sabedoria de uma figura que deixa uma marca universal nos Estudos Portugueses e nos Estudos Pessoanos. 

Pessoa, o verdadeiro profeta 

Foi com alguma “má consciência” que Eduardo Lourenço recebeu o prémio, disse na mesma entrevista pelo telefone, a partir de Vence (França), onde vive. “Todas as pessoas que recebem o Prémio Pessoa devem ter, penso eu, esse pensamento curioso: Pessoa, que foi o génio do século, que não teve uma vida fácil e nunca teve consciência da sua excepção, do seu futuro glorioso, não recebeu nenhum grande prémio.” Eduardo Lourenço recebeu vários, entre o quais o Prémio Camões em 1996. 

De Pessoa, poeta em que centrou a sua obra, salienta ainda: “Essa espécie de visão que ele teve do mundo, totalmente diferente, faz com que ele tenha sido o verdadeiro profeta dos tempos que estamos a viver, em que tudo oscila, e somos assaltados por uma dúvida terrível”. E conclui: “Somos quem somos um pouco por Camões ter existido. Mas com Fernando Pessoa, no nosso presente e no futuro, será a mesma coisa. A figura icónica e o mito da nossa realidade portuguesa agora é que é outra, já não é a mesma do tempo de Camões. É outra.” É, para ele, Fernando Pessoa.

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 08:59 | link do post | comentar

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