Sexta-feira, 3 de Junho de 2011


Mayra Andrade

 

Dez anos depois de subir pela primeira vez ao Coliseu dos Recreios, Mayra regressa, agora em nome próprio e com convidados de peso, para apresentar "Studio 105". Nesta conversa - sobre purismo e comida, sobre exotismos e preguiça - faz exactamente o mesmo

 

A primeira vez que Mayra Andrade cantou fora de Cabo-Verde foi numa festa de música cabo-verdiana encabeçada por Baú. Estava-se em 2001 e ela tinha 16 anos. Se actuar ao lado de um gigante já podia ser assustador, o palco, o Coliseu dos Recreios em Lisboa, certamente não tornaria a empreitada mais fácil.

Uma dezena de anos depois ela vai voltar a percorrer o mesmo soalho só que agora em nome próprio - e acompanhada por uma data de nomes grandes: Tito Paris, Bernardo Sassetti, Carlos do Carmo, Carlos Martins e Teresa Salgueiro serão os convidados do concerto de hoje, que se repete quarta em Serpa, quinta-feira na Figueira da Foz e sexta-feira em Tróia. 
A base dos espectáculos é o terceiro e último álbum, "Studio 105", um disco de versões descarnadas de canções dos seus dois primeiros discos, que começou por ser pensado "só como um disco bónus", mas depois "foi crescendo e tornou-se um disco por inteiro".

"Veio de uma necessidade que senti de fugir ao trabalho do 'Storia, Storia', que era muito denso musicalmente", dizia-nos, há um par de semanas. Estava em trânsito entre um concerto e outro, e tinha aproveitado a manhã para saltar a Lisboa e fazer promoção de imprensa. Pelo que fizemos birra para ter um pouco mais que a habitual meia-hora de conversa e conseguimos um almoço.

Nada mau, para mais tendo em conta que Mayra estava bem-disposta e conversadora.

"A única forma de cantar as canções antigas com honestidade é experimentar uma nova forma de cantar - ou novos arranjos", ia dizendo enquanto percorríamos o menu, para explicar como é que alguém que vive do que canta consegue manter interesse em canções que têm anos, em refrões que já se entoou centenas de vezes. "No Brasil faz-se carreira só a gravar versões, dos outros, de êxitos antigos", diz antes de se decidir pelo peixe e atirar, com inesperado sentido de auto-ironia: "O que me leva a pensar que tenho de começar a compor mais".

É curioso ouvi-la falar assim, sem rodeios, sem o habitual discurso preparado para a imprensa. Mas nem sempre as conversas seguem o guião e é daí que nascem os pequenos paradoxos, as pequenas contradições que têm graça. Como ouvi-la dizer que tem de compor mais, quando é notório que no que toca a trabalho ela é tudo menos preguiçosa.

Nasceu uma estrela

Sabemo-lo desde há quase uma década, quando a vimos pela primeira vez num palco numa terra perdida no mapa de Itália, ainda sem disco, ainda desconhecida para os europeus. O impacto foi de tal modo que no dia seguinte escrevemos "Nasceu uma estrela", assim, sem peias, neste jornal.

Ela tinha 17 anos, e ali estava, a cantar de pés descalços, a dançar sem parar, deixando toda a gente com a boca aberta perante aquela força abissal - um registo que foi acalmando em favor de uma maior propensão para a beleza, mas ao qual gostaríamos de a ver voltar.

Na altura tentámos entrevistá-la, mas ela era mais arredia, tinha uma certa desconfiança no olhar, o que é natural numa adolescente que estava a habituar-se a "ser uma mulher que liderava um grupo de homens mais velhos", o que, confessa agora com um sorriso malandro, "não era fácil".
"Quando saí de Cabo-Verde", conta, recordando, entre garfadas no peixe grelhado de óptimo aspecto mas de minúsculo tamanho, os primeiros tempos sozinha, "não me permiti ir abaixo, não me permiti fraquejar". 
Olhando para ela - a cara de boneca, os longos cabelos ondulados - não se imagina a força de vontade que por ali vai. Quando fala não é ditosa nem excessivamente ambígua. É ponderada, mas não há lugar a tremedeiras. Acima de tudo, parece ser de uma maturidade rara para a idade - tem apenas 26 anos, convém recordar, e já se tornou uma estrela, com um prémio Revelação World Music da BBC Radio 3 e dois discos de originais na carteira. Claro que "estrela" no mundo da "world music" não quer dizer o mesmo que na pop e ela tem consciência disso.

"Somos corredores de fundo, sabes? As vendas não são grandes mas temos gente nos concertos. É uma corrida longa", diz, enquanto pede mais uma dose de batatas e de peixe. "É curioso", continua, "há lugares onde os discos não são distribuídos mas de alguma forma chegam às pessoas e nos concertos elas reconhecem as canções e as letras".

Quase todo o discurso é pontuado por esta ponderação que não lhe permite tomar nada por garantido. Por exemplo, pode ter sido capa de revista, mas não papa tudo o que essas revistas afirmam sobre ela.

"Escrevem sempre a mesma coisa sobre mim e a minha música: que é sensual, quente ou exótica", diz, com um tonzinho de escárnio na voz. "Sou cabo-verdiana e faço música pessoal. Não sou exótica ou sensual ou quente só por causa do meu tom de pele".

(A irritação parece ser maior com a expressão "exótica", visto que "sensual" e "quente" ela sabe que é. De saltos altos, verniz escarlate nas unhas, top justo bordeaux, convenhamos, é difícil imaginar que não tenha consciência de que é bonita em qualquer parte do mundo.)

"Prefiro que se diga que a minha música é 'bastarda'", continua, mantendo uma linha de pensamento que pode chocar os puristas ou quem vê nela uma emanação das raízes cabo-verdianas: "Espera-se dos artistas world que usem certos instrumentos ou mesmo que te vistas de determinada forma. Ou que tenhas um certo discurso sobre África", diz, explicando que se recusa a aceitar desempenhar um papel pré-formatado pelos preconceitos que a imprensa tem da música cabo-verdiana. "Tento ser racional e dizer 'Oh, vou fazer isso que vocês querem que eu faça', mas depois preciso de estar inteira no que faço".

Para que se perceba onde quer chegar, ela gaba a música pop, "uma forma onde a beleza circula com mais acessibilidade, que tem uma simplicidade valiosa", e faz questão de lembrar que, como qualquer garota da sua idade, também gosta de sair e ir dançar essa mesma música pop.

Nem mesmo a sua geração escapa a esse olhar aguçado. "Em Cabo-Verde vês jovens a defenderem a música tradicional contra tudo e mais qualquer coisa. Mas esquecem-se que se ninguém fizer mais nada, ninguém vai querer ouvir música tradicional", diz, agora semi-irritada porque não vem a segunda dose de peixe. "Venho de uma família em que todas as mulheres são bom garfo e não têm cuidado nenhum com a educação alimentar", conta, quando a inquirimos acerca da sua tremenda vontade de comer. (A maior parte dos artistas não partilha sentimentos como a fome em público.) "Engordo com facilidade e não gosto nada", diz, com um sorriso maroto.

Mayra, que por norma não é a pessoa mais acessível em entrevista, revela-se, após umas garfadas, uma conversadora loquaz, com um apropriado sentido de auto-ironia. "É melhor comer bem do que comer mal, é melhor dormir bem do que dormir mal", diz, com a seriedade de quem está a passar um ensinamento zen a um aprendiz. Depois explica-se mais a sério: "Eu tenho uma boa higiene de vida - não fumo, não bebo, não me drogo, durmo bem - e tenho de ter porque este emprego é muito físico. Traz instabilidade emocional, mas por causa do físico. Dorme-se mal, come-se em fusos horários diferentes".

Entre reclamações pela segunda dose do peixe que não veio, confissões inesperadas ("Sou muito organizada. Sou uma secretária na alma.") e uma panacota ficou-se ali a perder tempo em conversa de xaxa e mundanidades. (Podia jurar que num dado momento se discutiu roupa. A dela. Que estava muito bem, sim senhora.)

A última coisa que Mayra diz antes de se ir embora para outra entrevista é: "Não me exponho muito, não dou pé para se falar da minha vida. Não gosto que façam histórias inventadas". É verdade. Mas, tal como quando despe as canções de arranjos se nota mais a sua voz, também quando se expõe um bocadinho, quando se mostra como uma moça de 26 anos, com as suas contradições, pequenas manias e paranóias com o peso, Mayra ganha uma espécie de espessura, de graça ainda maior.

Não deixa de ser uma estrela por isso.

 

Via Ipsilon



publicado por olhar para o mundo às 22:02 | link do post | comentar

2 comentários:
De md a 7 de Junho de 2011 às 19:49
Permita-me uma correcção - o músico caboverdiano chama-se Bau e não Baú.


De olhar para o mundo a 8 de Junho de 2011 às 01:00
Agradeço a correcção.


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