Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Angélico: história de um puto com a vida pela frente
Cresceu num bairro problemático, mas sempre procurou outros caminhos. Começou a trabalhar como fiel de armazém, até se tornar um ídolo dos mais jovens com Morangos com Açúcar e a boysband D’Zrt.

Por cinco minutos não foi o bebé do ano de 1983. Angélico Vieira tinha pressa e veio ao mundo nos últimos minutos do dia 31 de Dezembro de 1982, tendo sido o último bebé a nascer naquele ano na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Ou talvez a história não seja exactamente assim: «Dizem que já nasci no dia 1 de Janeiro, à meia-noite e qualquer coisa, mas fui registado a 31 de Dezembro. Na altura, o Estado dava benefícios ao primeiro bebé do ano e eu fui o primeiro, mas logo a seguir nasceu uma menina, filha de toxicodependentes, e a minha mãe falou com o médico e trocaram, de modo a que fosse ela a ter os privilégios», contou numa entrevista em 2006.

Angélico era apelido de Sandro Milton Vieira, mas tornou-se o nome que o projectou para a ribalta, na novela Morangos com Açúcar e enquanto elemento da boysband D’Zrt. Mas tudo mudou na madrugada de 24 para 25 de Junho, às 3h30, quando o cantor e actor de 28 anos se despistou ao quilómetro 254 da A1, perto de Estarreja, quando regressava a Lisboa com outros três amigos – Hélio Danilson Filipe, com morte imediata; Armanda Leite, internada com prognóstico reservado; e Hugo Pinto, o único a sofrer apenas ferimentos ligeiros.

«Angélico sofreu um traumatismo crânio-encefálico muito grave». Foram as palavras do médico Humberto Machado, director do serviço de urgência do Hospital de Santo António no Porto, que deu as primeiras informações sobre o estado de Angélico, ligado a um sistema de suporte de vida na unidade de cuidados intensivos do hospital.

As primeiras notícias davam conta que Angélico viajaria sem cinto de segurança, bem como outros dois ocupantes da viatura. O único passageiro que apenas sofreu ferimentos ligeiros seria o que levaria o cinto colocado. As vozes críticas não se acanharam e apontaram o dedo à atitude do jovem. Houve quem apregoasse que o caso deveria servir de exemplo para aqueles que ainda insistem em desrespeitar a lei, não usando cinto de segurança. Mas as notícias provaram ser infundadas.

O próprio comandante dos bombeiros de Santa Maria da Feira, Manuel Neto, garantiu que Angélico levava o cinto posto e que este teve de ser cortado. Apenas os dois ocupantes do banco traseiro não o levariam colocado, daí terem sido cuspidos. O acidente permanece envolto em dúvidas. Depois da questão do cinto de segurança, foi a vez de o relatório preliminar da investigação da GNR ter desmentido o rebentamento dos pneus, apontando as causas do acidente com o excesso de velocidade. Curiosamente, o actor e cantor era proprietário de um carro de alta cilindrada e nunca escondeu o seu amor por veículos potentes. Os amigos dizem que não bebia nem se drogava. «O meu vício é a velocidade», revelou numa entrevista.

Durante dias, à porta do hospital e um pouco por todo o país, os fãs alimentaram a esperança de um milagre. Mas no dia 28, perto das 14 horas, os médicos confirmaram a morte cerebral. Nessa mesma noite foi anunciado o óbito perante o choro e os gritos daqueles que aguardavam notícias no hospital.

Foi um mar de gente que passou pela Igreja Nova da Cova da Piedade, no Laranjeiro, e pelo cemitério de Vale Flores, no Feijó, para deixar flores e um último adeus ao seu ídolo. Houve jovens perto do desmaio, muitas lágrimas, palmas e canções recordadas. Centenas de fãs acompanharam o cortejo fúnebre durante três quilómetros.

'Não acredito que te perdi'

Filho único de pais angolanos a viver em Portugal, as raízes africanas estiveram sempre muito presentes na sua vida. Foi sempre muito próximo da mãe, Filomena – até porque o pai voltou a viver em Angola. «Mãe há só uma. Podemos cruzar-nos com muitas pessoas na vida, percebermos que são fantásticas, capazes de nos proporcionar segurança e lealdade, seres humanos fantásticos, mas poderão haver sempre surpresas desagradáveis.

Aquela pessoa que muito dificilmente nos poderá dar uma dessas surpresas é a mãe, porque saímos dela e vai querer sempre o nosso bem». E foi esta mãe, no momento da despedida do filho, que não controlou as emoções, gritando, entre lágrimas: «Não acredito que te perdi, meu filho. Amo-te muito».

Angélico cresceu num bairro problemático no concelho de Almada, mas manteve-se longe de problemas. Era um miúdo que gostava de cantar, dançar e brincar aos actores. Sonhava ser artista enquanto imitava Michael Jackson. Ainda assim entrou para o curso de Gestão de Distribuição e Logística. «Fui para aquele curso porque sempre trabalhei nas férias de Verão, em part-_-time. Inscrevi-me aos 16 anos numa empresa de trabalho temporário, em Lisboa. Chamaram-me e o meu primeiro trabalho foi de fiel de armazém, onde reunia notas de encomenda. Gostei, foi a primeira vez que senti que estava inserido na sociedade. Sentia-me útil».

Antes, porém, o seu visual já tinha dado nas vistas e aos 21 anos começou a trabalhar como modelo. Foi através da sua agência, a DXL Models, que teve oportunidade de participar no casting para os Morangos com Açúcar. Acabou por ser escolhido para interpretar David. Mais tarde acabou por deixar o curso no 3.º ano. «Entrar nos Morangos foi a melhor coisa que me aconteceu profissionalmente. Também aprendi muito como ser humano. Foi a rampa de lançamento para tudo, a maior montra que poderia ter em Portugal».

A personagem David não era apenas mais um jovem no vasto elenco da novela infanto-juvenil. Fazia parte de um grupo de quatro jovens que se estreavam nas lides televisivas e que dariam vida ao grupo musical D’Zrt – nome inspirado nas iniciais das quatro personagens: David (Angélico Vieira), Zé Milho (Vítor Fonseca), Ruca (Edmundo Vieira) e Tópê (Paulo Vintém).

Bastou uma primeira música para que os D’Zrt se tornassem um sucesso. O primeiro álbum saiu em 2005 e esteve 33 semanas no top nacional, 22 das quais em primeiro lugar, tendo atingido a marca dos 16 discos de platina. Com ‘Para mim Tanto me Faz’, a banda ganhou vida fora da televisão. Aliás, a prestação destas quatro personagens chegou ao fim na novela, mas o grupo prosseguiu carreira, passando da ficção para a realidade.

Em cerca de três anos, os D’Zrt conquistaram milhares de fãs, sobretudo jovens. Deram cerca de 300 concertos em Portugal e passaram pelos mais emblemáticos palcos, entre os quais o Coliseu de Lisboa que deu origem ao DVD Ao Vivo no Coliseu dos Recreios. Em 2006 lançaram o livro Passado, Presente e Futuro.

O sucesso enquanto actor e músico cresceu em simultâneo. Nunca se iludiu com a fama. «É claro que não me passou ao lado. Mas sei de onde vim e a pessoa que sou». Os amigos dizem que era muito grato aos fãs, que procurava nunca desiludir. E era simpático, meigo, sorridente e profissional.

Depois dos anos de extremo sucesso, a banda decidiu afastar-se, em inícios de 2008, para que cada elemento pudesse investir nas suas carreiras. Mas enquanto os outros três rapazes da banda se mantiveram mais recatados, Angélico depressa lançou o primeiro álbum a solo, com o seu próprio nome. Angélico foi disco de ouro e os singles ‘Gostasses de Mim’ e ‘Bailarina’ tornaram-se sucessos.

Em paralelo com a música, Angélico nunca abandonou a televisão, tendo integrado várias novelas da TVI. Ainda teve a sua estreia no cinema no filme 20,13 Purgatório do realizador Joaquim Leitão. Mas a música era a sua prioridade e, com o álbum que se preparava para apresentar, pretendia tentar a internacionalização.

Para o mediatismo de Angélico Vieira contribuiu também o namoro de cinco anos com a actriz Rita Pereira que conheceu em Morangos com Açúcar. O casal fazia sucesso na televisão, mas também nas inúmeras produções de moda, campanhas de publicidade e presenças em festas e discotecas. A relação terminou há cerca de três anos, envolta em alegadas traições, mas o amor entre os dois nunca morreu e foi a actriz quem mais esteve ao lado dos pais após o acidente.

Após a sua morte, as homenagens não se fizeram esperar. Na internet, multiplicam-se sites e páginas em redes sociais sobre o rapaz que um dia disse que o super-poder que gostaria de ter era a capacidade de voar: «Gostava, mas quando me olho ao espelho, vejo ‘apenas’ um puto com a vida pela frente, com muito para aprender e muita vontade para fazê-lo. Quero tornar-me um ser humano e um profissional mais valioso».

 

Via Sol



publicado por olhar para o mundo às 08:38 | link do post | comentar

1 comentário:
De aluguer de palcos a 22 de Julho de 2011 às 16:46
Até sempre Angélico...


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