Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
O Natal não é só prendas

 

Neste Natal, há menos dinheiro, mas pode haver mais tradição e proximidade familiar. O Life&Style quis saber como gerir as expectativas das crianças perante um Natal mais pobre e recebeu uma lição de humanidade da psicóloga Isabel Piscalho.  As crianças agradecem, mesmo que ainda não o saibam.

 

Quando falamos de Natal, o que fica do que passa? Será que as memórias de infância se centram numa imensidão de presentes por abrir e a que se dedicam apenas alguns segundos depois de os desvendar? Ou as recordações mais carinhosas ficam ligadas ao encontro com a família e ao espírito de partilha?

 

O Life&Style quis saber como gerir as expectativas das crianças perante um Natal mais pobre e recebeu uma lição de humanidade da psicóloga Isabel Piscalho. "Não há drama em haver pouco dinheiro. Podemos fazer um Natal muito mais humano e mais próximo. Não é um presente caro que vai fazer com que a criança goste mais de nós. O estar ali na brincadeira com ela é o que fica no seu imaginário e na sua memória. Mais tarde irá recordar o Natal como uma noite em que estava realmente em família."

 

Segundo a especialista, “em situações de crise, apercebemo-nos de novo que as pessoas são de facto o mais importante”. E lembra que no passado não havia tanta diversidade de brinquedos, mas o Natal acontecia. Acredita na repetição de ciclos e por isso pensa que se irá assistir a um “retomar de tradições mais antigas, como a de valorizar o Natal”. Porque, diz, “esta quadra deve ser trabalhada no seio da família sobretudo com o intuito de valorizar a partilha, o respeito e de fazermos um balanço sobre nós próprios”.

 

Considera que se passou do exagero de prendas para os miúdos para um exagero inverso: “Falamos imenso da crise e dizemos às crianças que não podemos comprar presentes. Temos tantas explicações para a austeridade e acabamos por não dar o devido valor à quadra e à filosofia que lhe está subjacente. E essa é que deve ser ensinada às crianças.”

 

Para Isabel Piscalho, “um presente bem pensado, com que a criança se identifique e que possa ser aproveitado para ser vivido em família fará com que ela fique muito mais contente”. E conclui: “Isso é que é essencial.” Dá exemplos como “jogos de tabuleiro, Pictionary ou outros idênticos, puzzles, etc”. As crianças ficam felizes se virem os pais envolvidos com elas naquelas actividades. “Oferecer um livro, por exemplo, deve ser acompanhado pelo contar da história, haver o ritual da leitura em casa. Porque, por vezes, oferece-se o livro, ele vai para a prateleira e não se olha mais para ele. Não há um interesse genuíno da parte de quem oferece em contar ou sequer em conhecer a história.”

Explicar o que é o Natal

Invoca a informação divulgada no início do mês sobre um estudo de uma empresa de brinquedos que concluiu que os pais portugueses são os que passam mais tempo a brincar com os filhos, para dizer que esta é “uma boa altura para o mostrarem”. Segundo a investigação, 34% dos pais portugueses despendem mais de uma hora por dia na brincadeira com as suas crianças (num universo de 1800 famílias de seis países).

 

 

A ideia que a especialista quer passar a quem tem crianças por perto é que “os adultos também se podem envolver nos presentes que oferecem” e sugere que trabalhem esta quadra com os miúdos antes da “grande noite”. Ressalva no entanto que tudo o que vai dizendo ao longo da entrevista não é “receita” universal. “O que nós, psicólogos, achamos correcto para uma família poderá não se enquadrar noutra.”

 

Mas há aspectos em que não tem dúvidas: “Os pais, em primeira instância, deveriam explicar a razão da existência desta quadra, independentemente da religião, tradições, crenças e valores que tenham. Com isto bem explicado, tudo o resto faz sentido. Como o facto de haver aqueles rituais em casa ou a escrita da carta ao Pai Natal”, exemplifica a psicóloga clínica e também professora. No entanto, quando fala da “carta”, não se refere a “uma lista de pedidos”, mas sim a um texto que se traduza num momento de reflexão.

 

Esta prática integra-se na forma como vive o Natal na sua própria família, em que envolve os filhos do marido, uma rapariga de 14 anos e um rapaz de nove: “Fazemos um balanço escrito e há sempre uma parte introdutória que diz: quem é que eu fui durante este ano, como é que me portei, quem é que eu quero ser para o próximo ano, o que preciso de melhorar. Depois, sim, pede-se um presente. ” Não é uma carta ao Pai Natal, mas ao “espírito de Natal”.

Fantasia é diferente de mentira

Para Isabel Piscalho, “em vez de os adultos se preocuparem com o presente mais caro ou eventualmente tentarem colmatar falhas, é melhor trazerem para casa a magia do Natal, pois é muito importante para a criança fomentar este espírito”.

 

No caso dos miúdos com idades mais baixas, há várias ideias para que se vá criando um ambiente de fantasia antes do 25 de Dezembro. “Todo aquele aparato, como deixar as cenouras para as renas ou, com farinha, simular umas pegadas do Pai Natal em direcção à chaminé. E dizer que alguém lá esteve.” Esta magia, segundo a especialista, “fica no imaginário das crianças, que mais tarde irão recordar com muito carinho”. E não é sinónimo de mentira.

 

“É certo que não devemos mentir às crianças, concordo com isso, mas há uma fantasia associada ao Natal que não podemos considerar mentira. Um pouco à semelhança da fada do dentinho (quando cai o primeiro dente). Tudo isto é algo que devemos cultivar enquanto estão a viver a infância. Há que deixá-las ser crianças.” E também para que não se limite o Natal a uma espera pela meia-noite para se abrir as prendas. “Por vezes, aquele momento que se espera na noite de Natal ou no dia seguinte, que é desfrutar um pouco dos presentes, até acaba por se perder. A criança vê-se com uma diversidade de estímulos que fica poucos segundos com cada uma das prendas. O Natal não pode ser isso.”

Recuperar o espírito natalício

Enfeitar a árvore, deixar o miúdo pôr a estrela no topo, dar-lhe a conhecer tradições de outros países e mostrar-lhe que há pessoas com mais dificuldades são algumas pistas para que se vá apercebendo do que é (ou pode ser) o Natal. Outra sugestão da psicóloga é a de “retomar a tradição de as crianças prepararem algo para apresentar na noite de Natal, seja uma canção ou uma representação teatral”.

 

Neste sentido, diz: “A crise até pode ‘beneficiar’ da recuperação do espírito da quadra. E esses valores devem ser passados dentro das famílias. É algo que se está a fazer nas escolas e creches que visito, porque acompanho os estágios dos alunos da Escola Superior de Educação onde lecciono. Há um apelo ao não consumismo e toda uma formação cívica que me parece não ser acompanhada em casa na mesma medida. Não posso dizer que é geral, mas apercebo-me de que em muitas famílias não se cultiva esse espírito da partilha e de respeito pelo outro.”

 

E para isso não é preciso acreditar no Menino Jesus ou no Pai Natal. “Já que toda a gente vive esta quadra, pelo menos que voltemos a dar importância ao que é estar em família. O que não tem de ser sinónimo de muitos presentes.” Nem de muito dinheiro.

 

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 08:42 | link do post

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