Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
O meu marido veste-se de mulher

"Já fizemos sexo com ele vestindo uma minissaia.Começamos a nos acariciar. Foi normal. É incrível, mas não tem fetiche aí"

 

Conheci meu marido em um curso de alemão nos anos 80. Sou arquiteta e queria estudar urbanismo na Alemanha. Ele pleiteava uma bolsa de estudos por lá, mas a vida nos levou por outros caminhos. Era uma sala pequena, com poucos alunos, e ele sempre chegava atrasado, derrubando tudo. Era atrapalhado e de cara me chamou a atenção por isso. Impossível não notar sua presença. Ainda hoje é bonito, 1,80 metro, grisalho, bem cuidado. Começamos a conversar casualmente e passei a dar carona até o estacionamento onde ele deixava o carro. Eu fazia o estilo hippie, andava de calça jeans, regata e rasteirinha. Ele estava sempre de terno porque era chefe de RH em uma empresa.

 

Em uma das primeiras caronas, ele me perguntou se eu tinha namorado. Respondi que não, ‘porque não queria nada sério naquele momento’, mas a verdade era que já estava atraída por ele. Foi paixão à primeira vista. Tinha tudo que eu queria em um homem: era sensível, fazia poesia, tocava violão. Era gentil, superculto e cavalheiro. E me paquerava com classe. Um dia, saindo do curso, o convidei para ir até a minha casa. Ele disse que não podia, mas me visitaria qualquer dia. Então, certa noite, estava saindo para uma festa e ele apareceu com um violão na porta da minha casa, sem avisar. Fomos para a festa de uns amigos meus e lá nada aconteceu. Quando foi me deixar em casa, decidi arriscar. Dei um beijo nele. Foi um beijo curto, mas bom. Na hora, pensei: ‘Ah, esse cara vai achar que eu sou muito avançada!’. Ficamos nos vendo durante uns três meses. Íamos ao cinema, ao teatro, mas sem sexo. Ele vinha de uma família moralista. Tínhamos um contato mais íntimo, mas não chegávamos aos finalmentes. Para mim, as coisas estavam seguindo um curso natural e queria investir nele. Então ele conseguiu a bolsa de estudos e ficou seis meses fora. Nós nos correspondemos por carta. Quando ele chegou, parecia que nunca estivemos separados. Nós nos casamos em um ano. A primeira transa aconteceu quando estávamos prestes a nos casar. Já tínhamos intimidade (brincávamos bastante de preliminares), foi bem natural. A transa foi tranquila, cheia de carinho.

 

Tivemos três filhos, que hoje são adultos. Durante os primeiros 25 anos de casamento, o relacionamento seguiu como qualquer outro: com altos e baixos. Nossa vida sexual sempre foi boa, frequente e criativa, mas sem nenhum fetiche nem fantasia. Depois desse tempo todo juntos, minha vontade de procurá-lo para transar foi diminuindo. Estava fazendo outra faculdade, com o foco na vida profissional e nos filhos. Deixei de prestar atenção no casamento. No dia em que completamos nossas bodas de prata, tivemos uma discussão por causa da minha falta de tesão. Meu marido disse que a vida dele estava péssima, um saco, que estava entediado. Falou que precisava repensar tudo e não queria mais morar na nossa casa. Fez as malas e foi para um hotel. Ele estava irritado. Não tive como impedi-lo. Fiquei desesperada. Meus filhos ainda moravam em casa e tentaram me consolar. Não queria mostrar o quanto estava abalada. Sozinha, me tranquei no quarto e chorei por horas. Eu me perguntava o que tinha feito para deixá-lo tão furioso. Não era possível que só a rotina o tivesse perturbado a ponto de sair de casa daquela forma. Desconfiei que ele tinha arrumado outra.

 

Fiquei ligando no celular dele durante toda a noite. Quando resolveu falar comigo, pediu que o deixasse em paz. Com muito ­custo, consegui marcar uma conversa para o dia seguinte. Nós nos encontramos no hotel e ele disse: ‘Vou te contar por que não aguento mais: gosto de me vestir de mulher e sei que é inaceitável. Não quero te fazer sofrer. É melhor me afastar. Não sou homossexual, gosto de mulher, de você’. Senti um enorme alívio. Queria ficar com ele e o importante era tê-lo ao meu lado. Ele me amava, tudo podia se resolver. Virei para ele e disse: ‘É isso? Vamos embora para casa’. Para mim, seria estranho desistir de uma vida inteira de cumplicidade por causa desse desejo.

 

Depois que ele voltou para casa, a sensação de alívio foi passando e as dúvidas começaram a brotar. Por mais cabeça aberta que eu fosse, não conhecia o universo dos crossdressers e não sabia bem o limite entre a vontade de se travestir e a homossexualidade. Quando comentei minhas dúvidas com ele, me contou que tinha feito muitas pesquisas a respeito e foi esclarecendo meus pensamentos. Disse que a primeira coisa que passou pela mente dele quando surgiu essa vontade foi: ‘Sou homossexual’. Mas depois entendeu que aquela era apenas uma forma de se expressar, que tinha a ver apenas com as roupas, os sapatos, a maquiagem, os adereços e acessórios — enfim, com caracterização feminina. Também disse que nunca quis ficar com um homem. Ele me contou que não tinha sentido vontade de se montar na vida. E que esse desejo apareceu no nada. Não conseguia encontrar nenhum fato que pudesse ter desencadeado esse sentimento tão forte. Era como se, ao se montar, ele acalmasse uma angústia ou um tormento interno.

 

Durante essas conversas, fui percebendo que ele tinha mais dúvidas do que eu. ‘Por que bloqueei isso a vida toda?’, ‘Por que surgiu assim, do nada?’ Esses questionamentos o deprimiam. Ao ver que ele estava mergulhado em pensamentos e que estava sendo sincero comigo, minha insegurança com relação ao rumo da nossa relação foi passando. Comecei a observar mais o comportamento dele e cheguei à conclusão (só minha) de que ele tem uma compulsão. Ele passa dias usando roupas de homem, até que vai ficando inquieto, irritado, e tem de colocar ao menos uma peça feminina, nem que seja um sapato de salto alto. No começo, ele se montava mais. Foi uma explosão: tudo era intenso e proibido. Hoje, ele raramente usa o figurino de mulher completo. Veste algumas peças, uma vez por semana, e quase não usa maquiagem.

A primeira vez em que ele se vestiu de mulher para mim, achei engraçado. Ele me avisou que ia se montar para eu ver e foi se trocar. Quando voltou, caí na risada. Ele fez uma produção tosca: colocou uma peruca, uma roupa super-Barbie, cheia de brilhos… Eu digo que, como mulheres, temos gostos absolutamente diferentes. Eu, super-hippie, e ‘ela’, perua, gosta de brilho, salto, maquiagem. Não fiquei chocada porque ele tinha me avisado e, afinal de contas, era meu marido por baixo daquilo tudo. É pela pessoa dele que sou apaixonada: com roupa de homem, de mulher, pelado.

 

Via Marie Claire



publicado por olhar para o mundo às 21:46 | link do post | comentar

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