Segunda-feira, 28 de Março de 2011
João Oliveira anda sempre a pé
 
Gracinda Martins tem carta de condução e automóvel, mas raramente recorre ao carro para as deslocações diárias. Vai e vem para o trabalho a pé. "São 15 minutos para cada lado", frisa. O recurso à viatura fica reservado para "os dias em que chove muito, quando é necessário ir às compras e trazer muitas coisas, ou quando é preciso sair da cidade". Há 20 anos que Gracinda cumpre o ritual diário de fazer os seus circuitos pela cidade a pé. No local onde trabalha, na Universidade de Aveiro, já todos a conhecem pela aposta teimosa - e saudável.
 

É, acima de tudo, uma opção de vida, uma experiência pessoal que a Câmara Municipal de Aveiro quer ver adoptada por muitos cidadãos, ao abrigo de um projecto europeu que pretende incentivar as pessoas a andarem a pé em pequenas soluções no seu dia-a-dia. E o testemunho de Gracinda Martins não podia ser mais encorajador: "Faço exercício físico, respeito o meio ambiente, ao mesmo tempo que tenho a oportunidade de apreciar pormenores da cidade que não descobriria se andasse de carro."

Parece difícil de acreditar mas, mesmo repetindo o mesmo caminho há já 20 anos - do Bairro do Liceu até à universidade -, Gracinda consegue descobrir sempre coisas diferentes. "É fantástico. No Parque da Cidade por exemplo, adoro apreciar as diferenças de paisagem e cheiros que o espaço tem em cada uma das estações do ano". "Isto já para não falar das pessoas com quem me vou cruzando e a quem tenho a oportunidade de dizer bom dia ou boa tarde", acrescenta esta verdadeira aficionada da circulação pedonal. 

Mais barato
Nos dias que correm, com a escalada do preço dos combustíveis, Maria Gracinda encontra outro motivo de peso para manter a sua opção pelas deslocações a pé. "É uma poupança considerável", atesta, ao mesmo tempo que reafirma que se trata de uma escolha que dá prazer e nem sequer obriga a grandes esforços. "Aveiro é plana. Até consigo fazer o meu trajecto diário de saltos altos, sem qualquer dificuldade", sublinha.

À ausência de grandes declives juntam-se outras características que tornam Aveiro uma cidade amiga das caminhadas. Começa desde logo por ter dimensões relativamente reduzidas. Em cerca 45 minutos, qualquer cidadão em condições normais consegue percorrer a pé a distância que liga dois pontos totalmente opostos da cidade. Exemplo? Fazer a ligação da zona das Glicínias até à entrada de Esgueira, ainda que pareça uma grande caminhada, não deverá levar muito mais do que 45 minutos. Ainda que a cidade seja atravessada pelos canais urbanos da ria, nos pontos mais estratégicos da zona urbana não faltam pontes para encurtar distâncias. 

Para os que possam ainda não estar convencidos do quão fácil pode ser circular pela cidade a pé, fica mais um argumento de peso, propalado por quem também opta pelas caminhadas em detrimento do automóvel. "À excepção de alguns serviços públicos que estão na zona da Forca-Vouga, cerca de 90 por cento das nossas necessidades estão na zona central, desde supermercados, bancos, entre outros serviços", evidencia outro cidadão aveirense, João Oliveira. A opção pelas deslocações a pé foi um hábito que herdou da sua estadia, por razões profissionais, em Lisboa. 

"Na altura em que saí de Aveiro para Lisboa até estava a pensar comprar carro, mas acabou por se tornar desnecessário uma vez que andava a pé e utilizava os transportes públicos", recorda. Trouxe esse hábito até à sua cidade natal, na certeza de que tal só foi possível porque mora no centro da cidade e o local de trabalho "era a cinco minutos a pé". João Oliveira sabe também, até tendo por base aquilo que vai ouvindo de conhecidos, que "se tivesse filhos para ir levar todos os dias à escola seria mais complicado fazer as deslocações a pé". 

Outro dos exemplos de vida que traduz a "mudança de mentalidades" que a Câmara de Aveiro pretende provocar na população local - incentivando-os a optarem cada vez mais pelos percursos a pé em deslocações que têm de fazer diariamente no centro da cidade - é o de Suzete Marques. É natural de Pinhel, encontra-se a trabalhar e a residir em Aveiro, e praticamente só pega no carro ao fim-de-semana para ir para a sua terra natal. De resto, faz quase tudo a pé, com pequenas excepções. "Consigo fazer muito bem as deslocações a pé dentro da cidade e evito esse problema do estacionamento", realça. 

Criar hábitos
Tanto Gracinda Martins como João Oliveira e Suzete Marques têm já incutida no seu dia-a-dia a mensagem que a autarquia quer transmitir aos seus munícipes com a anunciada aposta de distribuir mapas da cidade pelos moradores. No total, serão distribuídos 2000 mapas a partir dos quais os munícipes podem medir em minutos a pé os trajectos que querem percorrer. "As pessoas vão perceber que, num raio muito razoável para deslocações a pé, podem encontrar tudo ou a grande maioria do comércio, serviços e equipamentos de que necessitam no seu dia-a-dia", explica José Quintão, responsável pela aplicação do projecto em Aveiro. Nestes mapas, que serão distribuídos pelos residentes na zona da beira-mar e visitantes, é ainda dada informação sobre o acesso aos transportes públicos ou parques de estacionamento na zona ou ainda dos monumentos e locais de interesse. A curto prazo, a autarquia pretende avançar também com descontos nos parques de estacionamento para os clientes dos estabelecimentos comerciais no centro da cidade, em parceria com a Associação para a Modernização e Revitalização do Centro Urbano de Aveiro. A ideia passa por permitir que as pessoas possam deixar os seus carros nos parques de estacionamento e vão às compras no comércio tradicional, tendo direito a um desconto proporcional ao volume de compras, que pode ir até ao estacionamento gratuito. 

Na cidade que foi pioneira ao nível da aposta nas bicicletas como meio de transporte na zona urbana - as BUGA (Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro) foram inovadoras a nível nacional -, a mobilidade e o desenvolvimento sustentável continuam a estar na ordem do dia. Pelo menos é o que garantem os responsáveis da autarquia. "Ao longo dos últimos anos, as questões em torno da mobilidade adquiriram maior relevo pela importância que assumem no desenvolvimento sustentável das cidades e das regiões", refere o vice-presidente da câmara, Carlos Santos, para sublinhar, depois, que o município está "ciente desta realidade", razão pela qual "tem participado como parceiro em inúmeros projectos nacionais e europeus", de que é exemplo o Active Access. E, relativamente a este último, fica a promessa: "O município está fortemente empenhado em criar todas as condições para que os seus resultados sejam um êxito."

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 19:00 | link do post

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