Sexta-feira, 8 de Abril de 2011
O cozido é um dos pratos em competição
 
O cozido é um dos pratos em competição (Daniel Rocha)
 
Sua Excelência a Gastronomia Portuguesa apresentou-se hoje no Palácio Nacional de Queluz. Foram 70 receitas, entre entradas, sopas, peixes, mariscos, carnes, caça e doces, que se apresentaram formalmente para disputarem entre si uma das 21 vagas do concurso “7 Maravilhas da Gastronomia”, o qual terá o seu epílogo em Setembro. Dentro de um mês se saberá quais as iguarias, representativas de todo o país, serão seleccionadas para o passo seguinte da prova.

Olhar, cheirar, sentir, saborear e até ouvir a panóplia de pratos apresentados não é apenas uma imensa festa dos sentidos proporcionada pela gastronomia tradicional (ou quase, porque na lista ontem divulgada também surgem produtos locais e regionais). É também mergulhar num vasto leque que abrange áreas tão vastas como a preservação do património, a saúde e até o ambiente.

A ideia de que a gastronomia é apenas um pretexto para reunir em torno de uma mesa um conjunto de pançudos cujo único objectivo é atulharem-se de carniça e vinhaça há muito que não colhe, conforme salientou Madalena Carrito, presidente das Confrarias Gastronómicas. Comer e divulgar os pratos nacionais é uma forma de promover a cultura, de aproximar as pessoas e os locais. E como é que isso se faz? Com uma canja de borrego, por exemplo. Este prato, típico da Beira Interior, pode bem ser um chamariz para atrair aos restaurantes da região os turistas suficientes para gerarem negócios, dinheiro, postos de trabalho.

Mais importante do que tentar (embora mentalmente) saborear cada um dos 70 pratos apresentados em Queluz, é dizer que quando se iniciou o concurso, a 7 de Fevereiro deste ano, apareceram nada mais nada menos do que 433 candidaturas vindas de todo o país.

Das migas à sericaia

Uma primeira triagem, feita por especialistas gastronómicos e pessoas ligadas ao sector da restauração e turismo, reduziu o leque para os 70 pratos agora divulgados. Com algumas surpresas (hoje houve quem perguntasse pelo arroz doce e pelo leite creme), surgiu a região do Alentejo como a mais representada. 

Rica em aromas (longe vão os tempos em que, por necessidade, as ervas de cheiro aguçaram o engenho dos trabalhadores agrícolas para enganarem a fome), a gastronomia alentejana aparece com 12 candidaturas nesta fase da prova. Tem duas presenças (pezinhos de coentrada e presunto de Barrancos) entre o leque das dez entradas, três nas sopas (açorda à alentejana, gaspacho com carapaus fritos e sopa de cação), uma nos pratos de peixe (açorda de bacalhau), uma nas carnes (migas alentejanas), duas na caça (arroz de pombo bravo com hortelã e empada de coelho bravo com arroz de pinhão e passas) e mais três nos doces (encharcada do Convento de Santa Clara, pão de rala e sericaia). De facto, o Alentejo só não aparece representado nos mariscos, apesar de ter uma área costeira maior do que qualquer outra região do país.

A segunda região mais representada nesta fase do concurso é a de Lisboa e Setúbal, com nove pratos. Deliciem-se então os leitores ao imaginarem que podem começar a saborear uns pastéis de bacalhau, que podem depois optar por outro prato onde o fiel amigo impera (o bacalhau à Braz) ou por uma açorda de sável ou, ainda, por uma boa travessa de sardinhas assadas.

Para os mariscos, lisboetas e setubalenses apresentam como trunfos uma mariscada de Sesimbra e ostras do Sado. O repasto já vai longo, mas o apetite é de lobo e assim, passando às carnes, não há como fugir ao obrigatório cozido à portuguesa. Numa região onde impera o cimento (apesar de haver muita caça na região saloia e Oeste) não surge qualquer prato de animais abatidos a tiro, pelo que a solução é fechar a refeição com os afamados pastéis de Belém

Cozido das furnas impõe-se

Açores, Madeira, Trás-os-Montes e Alto Douro e Beira Litoral surgem, cada qual, com oito suculentas propostas. 

Começando pelas ilhas mais distantes realça-se a ausência de qualquer entrada, pelo que o remédio é avançar desde já para umas sopas do Espírito Santo. Com o estômago mais composto cai na mesa o polvo assado no forno. Não está satisfeito? Apetece-lhe algo mais? Talvez marisco? Tem então umas crassas cozidas, umas lapas grelhadas ou um cavaco cozido com molho verde. É agora tempo de passar à carne. O cozido das Furnas é obrigatório nos Açores e uma bandeira da região em quase todo o mundo mas, se porventura entende que o prato é pesado, então prepare-se para trinchar a famosa alcatra da Ilha Terceira, terra de gado e festa brava. Da caça não reza o menu (apesar desta ser uma das principais actividades e várias das nove ilhas), pelo que se encerra o repasto com um ananás.É agora tempo de espetar o garfo do que melhor podem oferecer as regiões de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para começar, só para evitar alguma fraqueza, avança uma alheira de Mirandela ou uma bôla de Lamego. Segue-se um caldo de cascas e, como não há tradição de peixe ou marisco, avança-se depois para mais uma alheira, desta feita com grelos salteados, ou para a celebrada posta mirandesa. Há ainda mais hipóteses de encher a barriga e chorar por mais. Porque não experimentar uma feijoada de javali ou o mesmo animal no pote e com castanhas? Se prefere aves pode experimentar os tordos fritos ou fritada de passarinheiros.

Avançando para a Beira Litoral a sugestão para a entrada é o queijo da Serra. As paredes do estômago já estão forradas e prontas a acolher a sopa. Opta-se então por uma de peixe da Figueira. Não havendo prato de peixe a disputar esta fase da prova vai a gosto o camarão da Costa da Figueira. Depois, fazendo agulha para as carnes, é tempo de ferrar o dente na chanfana ou de se deliciar com o sempre actual leitão da Bairrada. Entre os pratos de caça surge o coelho à caçador, que há-de vir a ser acamado com os ovos moles de Aveiro.

A vez do Algarve

A viagem dos sabores chega agora ao Algarve. Para a mesa salta de início uma muxama de atum. Não há sopa, mas em contrapartida existe um arroz de lingueirão que não deixa ninguém indiferente. Ainda lhe apetece saborear o mar? Então prepare-se para provar uns percebes de Aljezur ou xarém com conquilhas. Não há pratos de carne, mas existe um de caça: a perdiz à algarvia, que não o deixará indiferente. Fecha-se o banquete com o tradicional doce Dom Rodrigo.

A região de Entre Douro e Minho tem igualmente seis pratos seleccionados. Não há entradas, pelo que o primeiro que se vai saborear é o caldo verde. Segue-se o peixe e, aqui, a escolha é variada: vai desde o arroz de lampreia aos típicos pratos de bacalhau à Zé do Pipo ou à Gomes de Sá. Também não há mariscos, pelo que a solução é avançar para as tripas à moda do Porto. E, à falta de caça, sela-se a refeição com um pudim abade de Priscos.

A Beira Interior é a região que se segue. Abre o festim com uns espargos com ovos. Segue-se a já aludida canja de borrego e termina-se a sessão com uma perdiz de escabeche de Alpedrinha.

Vai longa a degustação, mas ainda sobre algum espaço para as especialidades apuradas na área da Estremadura e Ribatejo. Começa-se com a substancial sopa da pedra e, ainda antes de se começar a lavar os tachos, derrota-se um arroz de marisco.

E agora perguntam os leitores se tanto enfartamento não fará mal? Se não é de chamar “lateiro” a quem se apresta para engolir “meio mundo”? Responde à pergunta Alexandra Bento, da Associação Portuguesa de Nutricionistas e membro do conselho directivo das “7 Maravilhas da Gastronomia”: “O muito que se pode comer hoje pode ser reparado com mais ponderação nos dias seguintes. O que importa verdadeiramente é não abusar do sal e, em Portugal, o consumo de sal é mais do dobro do que aquele que é indicado”.

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 08:05 | link do post

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