
A robustez do corpo contrasta com a fragilidade de carácter. Sempre altiva parece caminhar com toda a tranquilidade. E teria a primeira das razões para ser assim. É bonita apesar dos quarenta anos de idade. Mas a insegurança é-lhe constante. Medo de errar, medo de desapontar, medo de perder.
A sua figura séria afasta muitos outros, que decerto ignoram a sua verdadeira personalidade. Lamenta-se por isso. Enquanto todo o universo aspira a beleza, ela não. Preferia antes ter uma aparência vulgar e não ser o palco das atenções. Mas raramente se queixa aos outros. Pelo contrário. Ri muito. Sempre. Tem consciência do efémero da vida e quer aproveitar todos os momentos intensamente. E assim o faz.
A ervanária é a sua arte, mas a par disso concilia uma série de outras atividades. Da cozinha às danças indianas, das aulas da filha à religião - em todas dá o máximo do seu empenho. Por trás de tudo isto há uma organização forte e sem tréguas, segundo a filha. É segura disso. Apenas. Mas tem, sobretudo, uma alegria e experiência de vida pouco comum para uma
mulher ainda jovem, que não sabe nem uma letra do alfabeto.
Conhecia-a este ano quando tive uma tendinite e andei desesperada no Martim Moniz à procura de pomadas e óleos que aliviassem a dor. Como sou uma gralha sei que não é difícil trocar uns bons dedos de conversa comigo, mas depressa houve uma empatia que já me fez voltar lá para comprar outros frascos.
Ontem lembrei-me dela quando estava a ler um artigo sobre um interessante projeto na Índia. Trata-se de um programa de saúde que visa formar mulheres analfabetas para serem médicas.
Num país onde as castas são uma rígida estratificação da sociedade e onde elas são educadas para ser submissas à família - este projeto torna-se ainda mais importante. A ideia nasceu na década de 70 por um casal de médicos que visitou a aldeia de Jamkehd, no interior da Índia, constatando que havia falta de médicos nos meios rurais e que para contornar o problema bastava ensinar as mulheres sobre os cuidados básicos de saúde.
Só as mulheres, porque são elas que são os pilares da família - embora a sociedade indiana não reconheça - e porque são elas que tratam de todos, sobretudo, das crianças. E os resultados saltam à vista. Em 40 anos são poucas as mulheres que morrem no parto, a taxa de mortalidade infantil foi reduzida em 30% e há menor incidência de casos de tuberculose, tétano e de outras doenças. Um projeto notável que mostra que todos são úteis e importantes e que, sobretudo, devolveu às mulheres o orgulho perdido. Porque as indianas também devem sonhar, basta acreditar!
Via A vida de Saltos Altos