Segunda-feira, 14.05.12
O corpo do pianista esteve durante uma hora em câmara ardente na Basílica da Estrela
O corpo do pianista esteve durante uma hora em câmara ardente na Basílica da Estrela (Pedro Cunha)

Todos lhe reconhecem a paixão, a beleza e a grandeza de alma, que punha em tudo quanto fazia. Uns conheciam-no melhor do que outros, mas para saber quem era Bernardo Sasseti bastava ouvi-lo. O piano falava por ele. Neste sábado à noite, centenas de pessoas - entre família, amigos, vultos da cultura e fãs - prestaram-lhe uma última homenagem na Basílica da Estrela, em Lisboa. Houve música, lágrimas e muitas palmas na despedida do Artista, assim, com “a” grande.

 

É das gargalhadas – “únicas, espontâneas e genuínas” -, que Vítor Carvalho vai sentir mais saudades. Vítor, de 46 anos, conhecia o Bernardo – ou melhor, o “Babá”, como era chamado em pequeno – desde os seis anos. Moravam perto, no Bairro Alto. Lembra-se de jogar caricas com ele e o irmão, Francisco. “Era divertidíssimo e um autodidata, em tudo”, recorda. O humor, coisa de família, era uma das suas melhores qualidades, sublinha, enquanto espera à porta da basílica pelo fim do velório.

Como ele, muitos deslocaram-se à Estrela para prestar a última homenagem ao pianista e compositor, de 41 anos, cujo corpo foi encontrado na quinta-feira numa falésia no Guincho, em Cascais. “Vim cá bater as palmas que não lhe dei enquanto era vivo”, diz João Gomes, 27 anos, cantor, designer e um dos muitos fãs do jazz de Sassetti presentes na cerimónia. O CD “Unreal: Sidewalk Cartoon”, que o pianista lançou em 2006, foi uma das poucas compras que João fez por impulso. “Ainda hoje é um dos meus favoritos”, afirma.

Outro fã, José Borges, ainda se lembra da primeira vez que ouviu o som do piano pelas mãos de Sassetti. Foi em 2007, num concerto nos Dias da Música do Centro Cultural de Belém. Quarenta e cinco minutos bastaram para o prender à sua melodia “alegre, bonita e transparente”. O estudante, de 23 anos, é apaixonado pela banda sonora do filme “Alice”, pelo álbum “Nocturno” e pelo projecto 3 pianos. “O valor da obra dele é imenso e não tem preço”, afirma.

“O Bernardo era insubstituível. Era uma luz para toda a gente, tinha uma inteligência brilhante”, diz Paulo Lourenço, maestro e amigo de longa data do músico. O importante agora, refere, é perpetuar o trabalho que deixou antes de uma morte “abrupta”, “chocante” e “injusta”, tal era o tamanho do que ainda tinha para dar.

O corpo do pianista esteve durante uma hora em câmara ardente perante o olhar emocionado de centenas de pessoas. Na cerimónia, que teve início às 22h, Mário Laginha e Pedro Burmester, que criaram com Sassetti o projecto 3 Pianos, tocaram piano em memória do amigo e do companheiro de palco. Juntou-se-lhes o grupo coral das Jovens Vozes de Lisboa, dirigido pelo irmão Francisco Sassetti, a orquestra Sinfonietta de Lisboa, e alguns alunos e professores da Escola Superior de Música da capital.

“Foi uma homenagem tristemente bonita”, descreve Laurent Filipe, músico, compositor e produtor, que foi à basílica prestar a última homenagem ao amigo de há mais de 20 anos. O “Babá” era, como diz, “um grande companheiro com demasiada alegria no coração para nos deixar”. Fez tudo com paixão, recorda Laurent. Desde a música, à imagem, à fotografia. “Era um artista com ‘a’ grande.”

Estiveram presentes também o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, a ex-ministra da Educação Isabel Alçada, os cantores Luís Represas, Carlos do Carmo, Mafalda Veiga, Pedro Abrunhosa, Camané, o realizador João Botelho e o escritor Gonçalo M. Tavares, entre outros. 

À cerimónia assistiu também o maestro Vitorino de Almeida, com quem Sassetti nunca chegou a trabalhar. “Nunca fizemos um projecto juntos. Não tinha que ser”, diz o maestro de 72 anos. “Sentia -me bem por saber que ele existia”, admite. O conforto que sentia com a ideia da “continuidade” deu agora lugar ao “horror da tragédia” que envolveu a morte de Sassetti. Um fim – “ou um início, quem sabe” – que não esperava tão cedo.

Ainda assim, até na morte ele foi coerente, diz Vitorino de Almeida. E explica: ”Só um homem como ele é que poderia cometer um excesso como este [ao ir fotografar para uma arriba], e isso, de certa forma, conforta-me.” 

O funeral de Bernardo Sassetti realiza-se neste domingo numa cerimónia privada.

 

Retirado do Público



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Sexta-feira, 11.05.12
O último álbum publicado, em 2011, foi uma parceria com Carlos do CarmoO último álbum publicado, em 2011, foi uma parceria com Carlos do Carmo (Pedro Cunha)
Bernardo Sassetti sabia bem que havia um disco pelo qual a sua carreira havia de ser lembrada. Seria sempre aquele que o seu nome puxaria. Porque era um disco de viragem, porque era aquele que mais vendera, porque o que uma boca diz habitualmente outra repete. Chama-se Nocturno. Por isso, vamos começar por outro.

Em 2010, Sassetti lançou Motion, álbum que o voltava a juntar ao trio – Carlos Barretto no contrabaixo, Alexandre Frazão na bateria –, a formação que mais longe o levara em termos criativos, num caminho que se tornara progressivamente mais livre, recusando as habituais estruturas do jazz ao mesmo tempo que nunca perdia de vista o lirismo aprendido com Bill Evans. Era um entra-e-sai de melodias, de partes que regressavam circularmente e soavam ao melhor que a música pode querer soar: sem rumo, mas sem se perder. No entanto, a importância de Motion não se esgotava aí. O amor furioso que Sassetti tinha pela música correu sempre em paralelo com outras duas paixões: a fotografia e o cinema (estaria mesmo a trabalhar num filme). Motion vinha dessa ideia de encadeamento, de que cada música é parte de um movimento e de uma dinâmica total. Além da música trazia fotografias suas e foi apresentado em concerto acompanhado por curtas-metragens também por si realizadas.

Tudo isto, idealmente, seria lançado numa caixa chamada Motion Box. Um dos projectos que ficou em suspenso, longe de ser o único. Há a banda sonora de Como Desenhar Um Círculo Perfeito, suite de violoncelo para o filme de Marco Martins, a música soberba composta para acompanhar o filme mudo Maria do Mar, de Leitão de Barros, que chegou a gravar com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa dirigida por Vasco Pearce de Azevedo – e que muitas vezes dizia ter sido a mais bela que alguma vez fizera –, um projecto chamado Songs Around Circles para grande orquestra a ser cantado por um crooner ao género de Nick Cave e um disco triplo de piano solo com peças inéditas e releituras do seu reportório. Dizia não ter tempo a perder, queria era gravar discos. Gostava, aliás, mais dos discos que dos concertos. Porque quando falhava a energia de lá para cá, do piano para as cadeiras, ficava uma coisa estranha, desconfortável. E as ideias eram demasiadas a atropelar-se para não estar sempre a pensar em registar umas e passar a outras.

Motion é um parceiro visual de Ascent, álbum de 2005 para um trio aumentado (ao piano, ao contrabaixo e à bateria juntavam-se violoncelo e vibrafone), dedicado originalmente ao cineasta José Álvaro Morais, para quem Sassetti compusera a banda sonora de Quaresma. Parte da sua discografia, aliás, é feita de música para cinema: do minimalismo de Alice ao tom orquestral de Second Life e ao dramatismo enlevado de Um Amor de Perdição. Com Mário Laginha e Pedro Burmester partilhou também o projecto 3 Pianos, juntando o mundo do jazz ao da clássica, temas originais a arranjos para Bartók, Samuel Barber, Bach, Poulenc e Ravel. 

A quatro mãos, as duas outras de Laginha, gravou ainda um disco de adaptação de canções de José Afonso, Grândolas. E a José Afonso voltaria no seu último álbum publicado, em 2011, uma parceria com Carlos do Carmo, para que fora desafiado pelo fadista. Em visita às canções mais marcantes na vida de Carlos do Carmo, Sassetti encontrava um inesperado companheiro de improvisação, uma alma gémea no jogo de gato e rato de tempos e respostas que desenvolveram ao olhar-se e ouvir-se no momento, gravando enquanto se descobriam.

A solo gravou Livre/Índigo, marcado pela sua admiração por Thelonious Monk. Indirectamente, o músico norte-americano apareceria também em 2006 no livro-disco, Unreal – Sidewalk Cartoon, obra singular, carregada de surrealismo e do humor que sempre arranjava maneira de se lhe infiltrar nas teclas do piano, que dizia ter aprendido a ouvir Monk. Actualmente, ia partilhando vídeos de piano solo na sua página de Facebook, com reinterpretações da sua obra mas também de temas do momento, pelos quais se apaixonava, do cabo-verdiano Bau ao italiano Ennio Morricone. Tudo isto depois do tal disco de viragem.

Em 2002, após uma prolongada ausência dos estúdios – antes houvera Mundos e Salssetti, sob a fortíssima influência do fascínio pela música latino-americana –, Sassetti levou o trio para Belgais e naquela casa feita estúdio nasceu Nocturno, um disco de assombro marcado por um respeito imenso pelo silêncio. O silêncio que, esperemos, não se siga agora. Há toda uma obra de infindável brilhantismo para e por ouvir. Resta-nos a música. Morreu-nos o melhor de todos.

 

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