Sexta-feira, 29.07.11
Entremuralhas na primeira edição, em 2010
Entremuralhas na primeira edição, em 2010 (Cortesia Entremuralhas)

O festival Entremuralhas é gótico, mas mais do que isso. Acolhe os Rosa Crvx mas também o documentário "William Burroughs - A Man Within". De hoje a domingo.

 

O Entremuralhas que começa esta noite é um festival gótico, porque tem lugar no Castelo de Leiria, imponente monumento medieval que, apesar das remodelações e reconstruções que se prolongaram até às primeiras décadas do século XX, tem características predominantemente góticas.

Mas não é um festival gótico que corresponda aos clichés associados ao género, com nada mais que bandas cantando sobre elfos e guerreiros da Idade Média e público vestido como em baile de máscaras demoníaco. Afinal, nele veremos a estreia em Portugal de um documentário sobre William Burroughs, figura maior da geração beat. E nele figuram como cabeças de cartaz, por exemplo, os Nitzer Ebb, banda de culto que é como que a versão em música industrial dos amigos de longa data Depeche Mode.

Mas sim, o segundo Entremuralhas que decorrerá entre hoje e domingo é um verdadeiro festival gótico que atrai público de todo o país e fora dele. Temos como prova os franceses Rosa Crvx, que cantam em latim, com um carrilhão de oito sinos em palco e imagens de demónios medievais projectados em tela. Mas não. Este é um festival onde assistiremos ao pré-lançamento do segundo volume d""As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy 2", de Filipe Melo, e que acolherá conferências em que participam o escritor José Luís Peixoto. Em que ficamos?

O festival, que teve a sua primeira edição em 2010, é uma organização conjunta da associação Fade In e da Câmara Municipal de Leiria, e o segredo da sua hibridez reside na natureza da associação que o programa.

Desde 2001 que a Fade In é uma das principais dinamizadoras musicais da cidade. Ao longo dos anos, levou a Leiria nomes ligados ao universo gótico mas também Michael Gira, A Silver Mt Zion, Woven Hand, Xiu Xiu ou Destroyer - ou seja, há nas escolhas de programação uma abrangência estética que, apesar do gosto pelo negro do gótico, pela provocação sonora da música industrial ou pelo rock mais virulento, não se fecha num universo específico. E, por isso, quando o PÚBLICO contacta Carlos Matos, da Fade In, ele começa por fazer um esclarecimento: "[O Entremuralhas] é um festival gótico porque decorre numa estrutura medieval gótica." Prossegue: "Obviamente que, ao decorrer num espaço com a história do Castelo de Leiria, queríamos uma programação que dignificasse o espaço e o evento, oferecendo ao público a oportunidade de ver bandas que nunca estiveram em Portugal [seis dos 12 concertos programados são de músicos que actuam no país pela primeira vez], com uma componente estética que não passa nas rádios e pelos festivais mainstream." Tudo resumido. Um festival orgulhosamente gótico, mas recusando "fechar-se no universo hermético" do género musical. "Também queremos provocar os fãs góticos com outras correntes estéticas", acentua.

Mais que música

As portas do castelo abrem-se hoje às 16h com concertos dos Nitzer Ebb, dos Sol Invictus, banda de uma folk negríssima, formada por Tony Wakeford em 1987, após a saída dos Death In June, e dos búlgaros Irfan, caldo cultural místico (do centro da Europa ao Magrebe) onde sobressai a voz de Denitza Seraphimovab, formada no famoso coro das Misteriosas Vozes Búlgaras.

Seguem-se, sábado, em actuações divididas por três palcos (o Alma, o Corpo e o Igreja da Pena), os controversos belgas Suicide Commando, música industrial feita de distorção excessiva e provocação punk, os supracitados Rosa Crvz, a melancolia em queda de Sieben, do violinista Matt Howden, como que parceiro espiritual do Dave Tibet, dos Current 93, e os leirienses Brainderstörm.

Domingo, o festival encerra com o rock gótico canónico, tal como definido na década de 1980, dos alemães Diary of Dreams, com os tétricos Arcana, suecos recuperando lendas antigas com sintetizadores modernos, com o "medievalismo" épico dos espanhóis Trobar de Morte e com a música ambiental dada ao paganismo dos catalães Narsilion.

Mas, como escrevemos acima, há mais que a música. E entre esse mais, destaca-se a exibição, domingo, às 17h, de "William 
Burroughs - A Man Within", documentário de Yoni Leyser. O realizador participará numa conferência dedicada ao autor de Junky após a exibição do filme. Estreado nos Estados Unidos em 2010, "A Man Within" é narrado por Peter Weller, que protagonizou a versão cinematográfica do Festim Nu, de David Cronenberg, tem banda sonora dos Sonic Youth e conta com depoimentos de admiradores e contemporâneos como Patti Smith, Iggy Pop ou John Waters. O filme representará também a primeira edição DVD da Fade In, que garantiu os direitos exclusivos para Portugal.De destacar, no mesmo dia, a pré-apresentação de "As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy 2", a BD de Filipe Melo que é misto de filme de aventuras, de super-heróis e de terror, tudo misturado em prancha e com Lisboa como pano de fundo - Melo chega a Leiria a dez páginas de ter completo o segundo volume das aventuras.

Considerando igualmente a programação para sábado de duas curtas de Edgar Pêra, "Um Filme Extraordinário" e "O Barão entre Muralhas", esta última concebida especialmente para o festival, as conferências de sexta ("O absinto e a cultura gótica", por Pedro Ortega, curador da Semana Gótica de Madrid) e de sábado ("Quantas das nossas histórias são verdades?", com José Luís Peixoto, Pedro Laginha e Miguel Nicolau), voltamos ao início. O Entremuralhas é um festival gótico, mas mais que isso.

Com bilhetes a 25€ (para um dia) e 60€ (para os três dias) e com lotação limitada a 737 pessoas - "Não vou explicar este número para não estragar o mistério", brinca Carlos Martins -, irão até Leiria portugueses e "comitivas" espanholas, inglesas, russas ou brasileiras. Estará gente que, aponta Carlos Matos, se entrega "a um certo voyeurismo": vestem-se para se mostrar, integrando-se no universo que admiram, e também vêem para ver quem assim se mostra. Dificilmente teriam melhor envolvência para tal que o Castelo de Leiria - onde estarão os Rosa Crvx, mas onde também encontraremos William Burroughs.

 

Via Público



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