Quinta-feira, 17.03.11

Ontem, quando assinalava os cinquenta anos do início da Guerra Colonial, Cavaco Silva disse esta frase: "Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar".


Sobre esta frase, ficam apenas algumas pequenas perguntas. Considera o chefe de Estado que a guerra colonial (repito: "colonial") foi essencial para o País? É comparável aos desafios que temos pela frente? Ou considera que foi um erro histórico? Ou não faz ideia e as palavras limitam-se a brotar da sua boca como se não quisessem dizer rigorosamente nada? Consegue o Presidente da República distinguir a coragem e a determinação exigidas num ato voluntário de cidadãos livres, da coragem e da determinação exigidas numa participação forçada numa guerra decidida por um governo ilegítimo? Tendo sido exigida coragem para sobreviver a uma guerra que o País não queria, ela será o melhor exemplo para dar ânimo aos jovens de hoje? Ser "carne para canhão" é o que o nosso Presidente pede aos jovens portugueses? Ser vítima da cegueira do poder, é o desígnio desta geração?

 

A que desprendimento se refere Cavaco Silva? Ao de fazer tudo para sobreviver numa guerra estúpida e injusta ou, pelo contrário, considera o Presidente que os jovens do seu tempo foram para a Guiné, Angola e Moçambique porque, desprendidos dos seus próprios interesses, acreditavam naquela "missão"?

 

Talvez mais importante: consegue o Presidente da República Portuguesa, eleito em democracia e liberdade, perceber a enorme gravidade política da comparação que fez? Resta saber se é apenas tão despolitizado que nem se apercebe do significado das coisas que diz ou se as diz por convicção. Em qualquer um dos casos é preocupante.

 

Tantos anos de democracia, e temos em Belém um Presidente que repete, com um ar cândido de quem diz uma banalidade, a propaganda do Estado Novo. Não tenho por hábito comparar nenhum político eleito a quem nos governou sem nunca o ser. Mas Cavaco Silva escusava de se empenhar tanto para facilitar comparações.

 

Por mim, espero que os jovens não precisem nem da coragem, nem da determinação que precisaram os que morreram ou ficaram com marcas para vida numa guerra inútil decidida por um ditador parado no tempo. Foi para que tal não lhes fosse exigido que homens como Salgueiro Maia (que Cavaco nunca soube respeitar) fizeram, com coragem, determinação e desprendimento, a revolução que permitiu a Cavaco Silva ser eleito Presidente.

 

Via Expresso



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