Sexta-feira, 06.05.11

Bang! Bang! Estás morto, de sedução

 

Bang Bang canta Dalida em "Les Amours Imaginaires", de Xavier Dolan. Tiros para fazer o espectador sucumbir à sedução. É no S. Jorge. À mesma hora, na Culturgest, as manobras do terrorista "Carlos", de Olivier Assayas, para conquistar o mundo. Bang! Bang! Sucumbimos nós

 

Quem suspeita dos sedutores - escrevia-se no número de Outubro de 2010 dos antigamente mais insuspeitos Cahiers du Cinéma - "não pode deixar de sucumbir, lógica paradoxal, à overdose de sedução". Bela desculpa, pois claro, e a revista francesa sucumbiu - bang! bang!, estás morta, de sedução. Passou as quatro páginas seguintes a justificar-se, apoiando-se e refugiando-se no desequilíbrio da coisa: o parfois émouvant, parfois agaçant, en équilibre entre les deux.

A "coisa" aqui, às vezes "comovente", às vezes "irritante", é a obra de Xavier Dolan, 22 anos. Sim, "a obra", pois que os seus dois filmes já são lidos como edifício: J'ai Tué Ma Mère - o "ai Jesus" da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2009, filme que Dolan escreveu quando tinha 17 anos - e Les Amours Imaginaires, filme que abre quinta-feira, às 21h30, no S. Jorge, o IndieLisboa.

Thierry Fremaux, o director artístico de Cannes, festival que tem estado a fabricar Dolan, tem a certeza que o quebequense Xavier, que, antes de realizar filmes, foi child actor (aos quatro anos), veio para ficar. É preciso, primeiro, que abandone o campeonato do cool.

O que tem seduzido alguns, para além do cabelo ao alto, dos óculos, da arrogância juvenil (a juventude continua a ser questão) é a iconoclastia - pós-queer?- de um jovem homossexual que interpreta jovens homossexuais sem fazer guerrilha. Ele já disse: "Não dizemos que há filmes judeus ou filmes heterossexuais" por isso não faz sentido estar a identificar filmes homossexuais. Bem visto.

Há um humor ácido nos filmes, também, isso não é pouca coisa. Será do Quebec? Cinematograficamente é que a coisa não escapa ao banal.

J'ai Tué Ma Mère, catarse da relação do próprio Xavier com a mãe, era uma exibição de histeria juvenil. Entre o émouvant e o agaçant, vencia o segundo. Era nesse filme que a personagem de Dolan dizia qualquer coisa como: "Párem de me comparar às crianças da minha idade, não sou como elas." O filme é isso: exibição de uma afectação, o sobredotado.

Em Les Amours Imaginaires temos fragmentos de um discurso amoroso, mas sem discurso. Xavier e uma amiga (Monia Chokri) estão mais apaixonados pela paixão do que pela estátua (Niels Schneider) que desejam. E que, quando lhes aparece à frente, parece aquele pedaço de As Virgens Suicidas em que irrompe o objecto de fascínio das irmãs Lisbon. Mais outro caso, como o de Sofia Coppola, em que o parfois superficial pode ser lido parfois como um filme de superfícies?

Les Amours Imaginaires não é um filme sobre um triângulo amoroso, é um filme sobre um duelo por um objecto de desejo, disse o realizador. Música e câmaras lentas. Bang Bang cantado não por Nancy Sinatra, mas por Dalida, ainda The Knife, Bach, cores garridas, pedaços de Wong Kar-wai, de Almodóvar, de Bertolucci, e um vazio no fim da acumulação. Mas Xavier Dolan é arguto. Como se se espantasse com o olhar dos outros, tem-se fartado de dizer que não tem muito para dizer ainda, porque não viveu muito. "Sinto que não devo ouvir as críticas positivas e negativas. Às vezes acho que as pessoas são demasiado duras para mim e outras vezes acho que são demasiado indulgentes", disse numa entrevista. Deviam ouvi-lo.

No final de Les Amours Imaginaires o desejo do desejo renova-se com o aparecimento de Louis Garrel. Devia ser o intérprete do próximo filme de Xavier Dolan, mas desvinculou-se. É Melvil Poupaud que, em Laurence Anyways, vai interpretar um homem que muda de sexo - e convence a mulher a continuar a amá-lo(a).

Fim das ideologias

A sedução é também a arma do terrorista Carlos: o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez - assim chamado em homenagem a Lenine -, conhecido como Carlos, o Chacal. Inimigo público nº 1 nos anos 1970, quando abraçou a causa da Frente Popular de Libertação da Palestina, cumpre pena perpétua numa prisão francesa pelas suas actividades. O filme, Carlos, que chega às salas portuguesas em Junho, é um tour de force de um cineasta habitualmente frágil e íntimo, Olivier Assayas, que aqui se aventura pela História, olhando para o revolucionário e

ou mercenário, para a "estrela" do terrorismo, de forma frágil e íntima. É um pedaço da história do século XX em mais de duas horas e meia, a versão televisiva ultrapassa as cinco horas e meia, é o relato do fim das ideologias, das utopias, bombas, tiros e etc, mas o assalto às instalações da OPEC, em Viena, em 1975, por exemplo, é reconstituído com quem descreve actos e feitos do quotidiano e não cenas de um filme de acção.

É, sobretudo, uma história sobre o narcisismo de um corpo: Carlos - outro tour de force, o do actor venezuelano Edgar Ramirez - e a sua estratégia de sensualidade, as mulheres como as armas, para chegar ao topo. Ao som de Dreams Never End, dos New Order, frente ao espelho. Bang! bang!, aqui sucumbimos nós, na Culturgest, quinta, às 21h15.

"Les Amours Imaginaires", de Xavier Dolan, Cinema S. Jorge, quinta, às 21h30
"Carlos", de Olivier Assayas, Grande Auditório da Culturgest, quinta, às 21h15

 

Via Público



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