Segunda-feira, 26.03.12

As manifestações a exigir uma investigação à morte de Trayvon Martin multiplicaram-se por toda a AméricaAs manifestações a exigir uma investigação à morte de Trayvon Martin multiplicaram-se por toda a América (Chris Sweda/ Chicago Tribune/MCT/Reuters)


A morte de um adolescente afro-americano na Florida está a gerar um debate sobre o estado das relações raciais na América na era Obama.

 

Trayvon Martin, de 17 anos, foi morto numa noite chuvosa quando saiu de casa para ir a uma loja de conveniência. George Zimmerman, o voluntário encarregado da vigilância nocturna de um condomínio privado em Sanford (um subúrbio de Orlando), suspeitou de Trayvon e alertou a polícia. A polícia disse-lhe que ia enviar um agente e pediu-lhe para não fazer nada. Mas Zimmerman seguiu Trayvon. Zimmerman diz que Trayvon tentou atacá-lo. Zimmerman estava armado, Trayvon não. As únicas coisas que tinha consigo eram o pacote de rebuçados e a lata de chá gelado que comprara na loja de conveniência. Trayvon morreu com uma bala no peito.

Zimmerman, de 28 anos, alegou ter atirado em legítima defesa. A polícia disse não ter encontrado nenhum indício que demonstrasse o contrário e deixou Zimmerman partir sem sequer incriminá-lo. Caso encerrado. 

Isto aconteceu há quase um mês, a 26 de Fevereiro. Mas o que começou por ser uma história de crime local adquiriu proporções nacionais na última semana. Trayvon Martin era negro, George Zimmerman é branco. A sensibilidade racial do caso trouxe ao de cima memórias da era dos direitos civis na América. Na quarta-feira, os pais de Trayvon, Tracy Martin e Sybrina Fulton, participaram numa marcha com cerca de mil pessoas em Nova Iorque, muitas delas encapuzadas, numa homenagem a Trayvon, que usava uma camisola com capuz na noite em que foi morto. Objectivo: exigir a investigação do caso. Na quinta-feira à noite, umas 30 mil pessoas concentraram-se em Sanford. Há várias concentrações do género noutras cidades americanas anunciadas no Facebook para os próximos dias. Uma petição lançada pelos pais de Trayvon no siteChange.org tinha até ontem quase um milhão e meio de assinaturas e o número estava a crescer rapidamente.

Anteontem, na sua primeira página, o Washington Post referia-se ao início de um movimento.

O Departamento de Justiça, chefiado pelo afro-americano Eric Holder, decidiu investigar os acontecimentos, incluindo a forma como as autoridades locais actuaram. E ontem o Presidente garantiu que o caso será investigado até às últimas consequências. "Se eu tivesse um filho, ele seria parecido com o Trayvon", disse Obama.

A raça importa


"Isto é mais um exemplo de como a América não vive numa era pós-racial", diz ao PÚBLICO Andra Gillespie, professora de Ciência Política na Emory University, na Georgia (Atlanta), especializada em questões raciais. "Toda a gente pensava que quando o Presidente Obama fosse eleito ia ser o fim do racismo e a questão da raça deixaria de ter importância. Mas a raça importa e custou a vida a este jovem."

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 17:46 | link do post | comentar

Quarta-feira, 22.02.12


Hulk

1. Confesso que não assisti ao jogo FC Porto-Manchester City com a devida atenção. Não posso, por isso, garantir que tenha havido manifestações racistas vindas das bancadas e dirigidas a jogadores da equipa inglesa. Mas de uma coisa estou certo: nunca tinha ouvido os adeptos dos dragões gritar “Hulk, Hulk, Hulk”. A bem dizer, e atendendo à forma simiesca como isto soa, custa-me a crer que alguém usasse tal mensagem à laia de apoio.


É muito dura esta questão do racismo. Por um lado, o politicamente correcto tão em voga nos dias de hoje tanto exacerba manifestações individuais (como se viu no caso Evra/Suarez) como é capaz de as virar contra a vítima (será que Javi Garcia insultou mesmo Alan? – nunca saberemos, porque a denúncia foi recebida com ameaça de sanções… ao alegado ofendido).

Eu gosto de traçar uma linha entre o que é evidente aos olhos do público e o que devia ficar apenas entre dois adversários em campo. Acho que os segundos casos, sem aproveitamentos oportunistas ou ressabiamentos diversos, não deviam vir cá para fora. Muita gente discorda. E fazem bem. Este é um tema que não se deve calar. E da discussão há-de sair alguma luz.

Mas quando a coisa entra no domínio público (e, com a denúncia feita por Evra, foi isso o que aconteceu em relação a Suarez), então a justiça desportiva deve ser implacável. Agora são dois jogadores do City a queixarem-se de cânticos racistas no Dragão. Um deles, Yaya Touré, chegou mesmo a alvitrar que “talvez em alguns países não esperem ver jogadores negros”, o que diz muito sobre o seu conhecimento da sociedade portuguesa, em geral, e do futebol luso, em particular…

Adiante. Não farei de juiz num caso em que não disponho de todos os elementos. Mas também não deixo que me chamem parvo. E foi isso que alguém do FC Porto quis fazer – a mim e a todos os que seguem o futebol com alguma atenção – com a estratégia básica de tentar tornar natural o cântico “Hulk, Hulk, Hulk”, entoado até aos limites da azia em Setúbal. 

2. Pertenço ao grupo dos que não gostam mesmo nada de Sá Pinto. O seu perfil psicológico, o seu temperamento explosivo, a naturalidade com que passa à agressão física dizem-me que está aqui tudo o que não quero ver num líder. Que a actual direcção do Sporting o tenha colocado a tutelar os escalões de formação (depois de ter saído do clube exactamente devido a um episódio de violência), é daquelas coisas que não têm explicação.

Agora foi promovido a treinador da equipa principal. Não sei o que vale Sá Pinto com técnico. Mas o facto de não gostar dele não me impede de reparar nos sinais de delírio colectivo que se vive nas bancadas de Alvalade. Ouvir os adeptos a assobiarem a equipa assim que esta fazia dois passes para trás no jogo com o Paços de Ferreira dá um claro sinal de como será difícil a vida para quem quer que envergue aquela braçadeira de treinador.

Para já, Sá Pinto conseguiu um bom resultado fora na Liga Europa e venceu o seu primeiro jogo de campeonato em Alvalade. A equipa, que alguns adeptos insistem em ver como um conjunto de artistas pagos a peso de ouro e que os desilude a torto e a direito, terá de superar muita coisa para dar a volta por cima, a começar pela sua própria falange de apoio. Como se diz que as claques organizadas têm muito poder dentro do Sporting, e essas gostam muito do actual técnico, parece-me evidente que há claras brechas na família de Alvalade.

Para já, Sá Pinto está a sair-se bem. Tenho dúvidas que ele mereça. Mas o Sporting tem de ser maior do que isso.

3. O Benfica perdeu em Guimarães. Foi a primeira derrota na Liga e proporciona, para já, nova emoção na prova, com a reaproximação do FC Porto. Para os encarnados, foi daquelas noites em que nada, nem mesmo as coisas mais óbvias, saem bem. Passes falhados, desaproveitamento total das bolas paradas, hesitações tácticas.

Jorge Jesus não abordou bem a partida. Para não ter de escolher entre Cardozo e Rodrigo, acabou por deixar ambos órfãos lá frente, muito longe de um Aimar demasiado preso à posição, sem a protecção de Witsel (no banco) e Javi García (de fora). Mais tarde, com o belga em campo, o argentino soltou-se e viu-se algum Benfica. Se a fórmula tem resultado, porquê inventar?

Resta dizer que os jogadores do V. Guimarães foram exemplares na entrega ao jogo. Foram sempre os mais rápidos sobre a bola e conseguiram pressionar no campo todo ao longo de quase toda a partida. Mereceram ganhar.

 

Via Público



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Terça-feira, 21.02.12

UEFA abre processo ao FC Porto por atitudes racistas dos adeptos


A UEFA abriu um processo disciplinar ao FC Porto pela “conduta imprópria dos adeptos” no jogo da Liga Europa frente ao Manchester City. Os “dragões” arriscam multa de 20 mil euros.


“Dando seguimento à queixa apresentada pelo Manchester City, a UEFA iniciou hoje os procedimentos disciplinares contra o FC Porto pela conduta imprópria dos adeptos (artigo 11 bis do Regulamento Disciplinar) durante o jogo da Liga Europa da semana passada”, refere a curta nota do organismo que tutela o futebol europeu.

Em causa estão os insultos racistas dos adeptos aos futebolistas de origem africana Mario Balotelli e Yaya Touré, que no final do jogo se queixou. Na conferência de imprensa após o jogo, o treinador Roberto Mancini desvalorizou o facto, tendo dito que não se apercebeu do ocorrido, lembrando ainda que os seus pupilos são “fortes”.

Caso a UEFA considere que houve insultos racistas no Dragão, o FC Porto incorre numa multa de 20 mil euros. Para os casos mais graves, o regulamento disciplinar prevê sanções adicionais, que podem ir de um jogo à porta fechada à desqualificação.

O FC Porto também minimizou a situação, considerando que tudo não passou de um “mal-entendido”, classificando os sons provenientes das bancadas com incentivos a Hulk.

Ainda assim, o Manchester City formalizou a queixa que agora será analisada.

No campo, o FC Porto terá a complicada missão de dar a volta em Manchester à derrota 1-2 sofrida em casa.



Vídeo captado no Estádio do Dragão (vídeo: SimonVideos461/Youtube)


 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 23:27 | link do post | comentar

Sexta-feira, 17.02.12

Racismo no Dragão?

Para o director de comunicação do FC Porto, Rui Cerqueira, “nada de anormal aconteceu” no jogo com o Manchester City.


Em declarações reproduzidas pela agência Reuters, o director de comunicação do FC Porto, Rui Cerqueira, mostrou-se surpreendido pela queixa do Manchester City junto da UEFA, por alegados cânticos considerados ofensivos dirigidos a jogadores dos “citizens” no Estádio do Dragão”.

“O que podemos basicamente dizer é que nada de anormal aconteceu. Ninguém notou nada estranho, nem mesmo os delegados da UEFA que trabalharam de perto com o FC Porto durante a partida”, afirmou Rui Cerqueira.

A imprensa inglesa dá conta nesta sexta-feira de que dois jogadores do City (Yaya Touré e Mario Balotelli) se queixaram de ter ouvido “gritos de macacos”, e que sentiram que esses gritos eram dirigidos contra eles.

À Reuters, Rui Cerqueira disse que os cânticos em causa foram proferidos pelos adeptos do FC Porto e do City, dirigindo-se aos respectivos jogadores Hulk e Sergio “Kun” Aguero. “Kun, Kun, Kun; Hulk, Hulk, Hulk”, demonstrou o director de comunicação do FC Porto, explicando que tal poderá ter sido confundido com outros sons.

“Estes cânticos podem facilmente ser confundidos com cânticos racistas”, disse Cerqueira, notando que o FC Porto não tem historial de incidentes racistas. “Temos orgulho em ter uma equipa multirracial, com jogadores de várias origens e que obtiveram muitos títulos na base do respeito. Os jogadores do FC Porto nunca sentiram o mais pequeno indício de racismo, e ficaram muito surpreendidos com as acusações”, concluiu.

Veja um vídeo captado na quinta-feira na bancada do Dragão (vídeo: ErdnaAndreSilva/YouTube)


 

 

Via Público



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Quinta-feira, 16.02.12
O Tintin no Congo foi publicado em 1931
O Tintin no Congo foi publicado em 1931 (DR)
Acusar Hergé de racismo sem ter em conta o contexto histórico em que foi publicada a aventura “Tintin no Congo” é absurdo. Foi este, em substância, o entendimento da justiça belga na acção colocada por Bienvenu Mbutu Mondondo, um cidadão da República Democrática do Congo a residir na Bélgica que pedia a retirada do mercado daquela banda desenhada.

O tribunal considerou que a pretensão do queixoso só podia ser aceite se fosse feita prova de que aquela obra de Hergé tinha “uma intenção discriminatória”. “Tendo em conta o contexto da época, Hergé não podia estar animado de uma tal vontade”, considera a sentença.

O advogado da Casterman (editor franco-belga de Tintin) e da

Moulinsart (detentora dos direitos da obra do artista belga) saudou a sentença dos juízes. “É uma decisão sã e plena de bom senso, segundo a qual é necessário olhar para uma obra no seu contexto e compará-la com as informações e ‘clichés’ da sua época”, afirmou Alain Berenboom. “É a época da ‘revista negra’ de Josephine Baker e da exposição colonial de Paris. Hergé está sintonizado com o seu tempo, não há racismo, mas um paternalismo amável.”

Desde 2007 que Mbutu Mondondo está empenhado em conseguir que a aventura “Tintin no Congo” seja proibida ou, pelo menos, seja incluído um texto introdutório que explique o contexto cultural da época em que foi publicada, nos anos 30 do século passado. É isto o que acontece no Reino Unido desde 1991, com o álbum a ser arrumado nas livrarias nas secções para adultos e não na área infanto-juvenil.

A acusação defende que Hergé apresentou o homem negro como “preguiçoso, dócil ou idiota” e, para cúmulo, “incapaz de se exprimir num francês correcto”.

Segundo Ahmed L’Hedim, advogado de Mondondo, “é uma banda desenhada racista, que faz a apologia da colonização e da superioridade da raça branca sobre a raça negra”. “Ponham-se no lugar de uma menina negra de sete anos que descobre ‘Tintin no Congo’ com os seus colegas de classe.” 

Esta campanha contra a segunda aventura de Tintin – e também a que tem um enredo mais controverso, quando lida à luz do nosso tempo – tem merecido regularmente destaque nos média, onde detractores e defensores de Hergé esgrimem argumentos. No passado mês de Novembro, Valery de Theux de Meylandt, procurador do rei belga, tornou pública a sua posição sobre o assunto, considerando que aquela aventura não tinha nada de racista. Para o advogado de Mondondo, pelo contrário, é “claro que os estereótipos que figuram neste livro lido por um número considerável de crianças, têm consequências no seu comportamento actual”. E concluí: “O racismo encontra o seu ponto de apoio neste género de estereótipos”.

Imagem caricatural faz rir... os negros

Em Outubro de 2010, o então ministro congolês da Cultura defendeu a perspectiva veiculada por Hergé nesta aventura: “Quando o livro foi escrito, os congoleses não sabiam de facto falar francês. Na época descrita na obra era efectivamente preciso usar o bastão para pôr os congoleses a trabalhar ou mais simplesmente para os impelir ao trabalho.”

Daniel Couveur, jornalista do diário belga “Le Soir”, é autor de um livro sobre o tema (“Tintin au Congo de Papa”) no qual propõe a introdução nos álbuns de uma advertência sobre as circunstâncias e contexto que a tornaram possível aquela aventura, sublinhando ao mesmo tempo o seu valor pedagógico. Cita o que foi publicado em 1969 pela revista “Zaire”: “Há uma coisa que os brancos que suspenderam a circulação de ‘Tintin no Congo’ não compreenderam (...) Se certas imagens caricaturais do povo congolês (...) provocam um sorriso dos brancos, elas fazem rir abertamente os locais, porque os congoleses encontram aí matéria para fazer pouco do homem branco ‘que os via daquela maneira’!”

Quem não encontrou motivo para rir em todo este processo foi o Conselho Representativo das Associações Negras em França. Louis-Georges Tin, o seu presidente, diz que a questão central é a de saber se “Tintin no Congo” difunde ou não uma mensagem racista ainda hoje, o que é dificilmente contestável”: “A partir deste julgamento, qualquer um pode afirmar que não é racista, anti-semita, sexista ou homofóbico escudando-se atrás do ‘contexto de época’”.

Os advogados de defesa contra-argumentam: “Sim, a liberdade de expressão pode ser limitada e o racismo pode ser um fundamento dessa medida, mas nesse caso é preciso poder explicar por que se torna necessário proibir esta publicação para bem da nossa sociedade. Ora, nada disso ficou demonstrado.”

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 08:28 | link do post | comentar

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